O Brasil e a Holanda estão lançando uma nova oportunidade para pesquisadores que desejam estudar formas de tornar a agricultura mais sustentável e, ao mesmo tempo, proteger o meio ambiente.

O foco principal está no Cerrado, especialmente na região conhecida como Matopiba, área que engloba partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Essa região se tornou um dos maiores polos de produção agrícola do país, mas também é uma das mais afetadas pelo desmatamento e pela perda de biodiversidade.
A parceria entre os dois países vai disponibilizar recursos significativos para financiar projetos conjuntos. O CNPq investirá R$ 4 milhões, enquanto o NWO destinará cerca de 2,86 milhões de euros (o equivalente a quase R$ 16 milhões). O prazo para envio das propostas termina no dia 13 de janeiro de 2026.
Por que o Cerrado e o Matopiba são tão importantes?
O Cerrado é considerado o segundo maior bioma do Brasil, atrás apenas da Amazônia. É uma savana rica em espécies vegetais e animais, muitas delas encontradas apenas nesse ecossistema. Além disso, o Cerrado é responsável por alimentar grandes rios que abastecem regiões inteiras do país.
Dentro dele, o Matopiba ganhou destaque nas últimas décadas pela expansão da agricultura, principalmente de soja e milho. Hoje, é uma das áreas que mais produzem grãos no Brasil. Porém, esse crescimento acelerado trouxe também sérios problemas, como o avanço do desmatamento, a pressão sobre comunidades tradicionais e a ameaça à fauna e flora locais.
Só em 2023, quase metade de toda a perda de vegetação nativa do Brasil ocorreu no Matopiba. Isso mostra a urgência de criar estratégias para conciliar produção agrícola e conservação ambiental.
Quanto será investido e quem pode participar?
O edital prevê financiamento para até quatro projetos de pesquisa. Cada grupo poderá solicitar até 715 mil euros do lado holandês e 1 milhão de reais do lado brasileiro. Os projetos terão duração máxima de 48 meses.
No caso do CNPq, os recursos vão cobrir bolsas de estudo e apoio a pesquisadores, tanto no Brasil quanto no exterior, além de custeio de atividades ligadas às investigações.
Mas há uma condição importante: as propostas precisam ser feitas em conjunto entre cientistas brasileiros e holandeses. Isso significa que os grupos de pesquisa devem formar consórcios, reunindo diferentes especialistas e instituições.
Além disso, é exigida uma abordagem interdisciplinar e transdisciplinar. Em outras palavras, os projetos não podem ficar restritos apenas a uma área do conhecimento. Eles precisam juntar diferentes pontos de vista — como biologia, agronomia, economia, sociologia e ciência política — para encontrar soluções mais completas.
Quais temas os projetos devem abordar?
Cada proposta deverá escolher pelo menos dois dos seguintes tópicos:
- Cenários futuros de uso da terra – elaborar previsões baseadas em dados científicos para apoiar a preservação da biodiversidade e dos chamados serviços ecossistêmicos, como a polinização, a fertilidade do solo e a qualidade da água.
- Impactos sociais, econômicos e ambientais – analisar como diferentes formas de uso do solo podem afetar comunidades, economias locais e o meio ambiente.
- Sistemas agrícolas mais resilientes – desenvolver práticas de produção que resistam melhor às mudanças climáticas, sem deixar de lado a proteção da biodiversidade.
- Modelos de governança – pensar em maneiras de gestão e tomada de decisão que permitam uma transição para formas mais sustentáveis de produzir e ocupar a terra.
A ideia é que os projetos consigam unir pesquisa científica, aplicação prática e diálogo com a sociedade. Assim, os resultados poderão ser úteis tanto para agricultores quanto para formuladores de políticas públicas.
Como será feita a seleção?
As propostas deverão ser submetidas em inglês por meio do sistema eletrônico da NWO, sempre pelo coordenador holandês do consórcio. Isso porque a chamada é internacional e precisa seguir um padrão comum.
Para apoiar os interessados, está programada uma reunião online no dia 26 de novembro de 2025. O encontro servirá para tirar dúvidas e também para facilitar o “matchmaking”, ou seja, o contato entre pesquisadores que queiram formar parcerias.
Por que essa iniciativa é relevante?
A chamada Brasil-Holanda surge em um momento em que o mundo inteiro discute como garantir segurança alimentar sem destruir ainda mais o meio ambiente. O Cerrado, por ser um território estratégico tanto para a produção de alimentos quanto para a conservação da biodiversidade, se torna um verdadeiro laboratório a céu aberto para esses estudos.
Se bem-sucedidos, os projetos podem ajudar a criar políticas públicas mais eficazes, inspirar práticas agrícolas sustentáveis e oferecer alternativas para reduzir o desmatamento. Além disso, a colaboração internacional reforça a troca de experiências entre países que enfrentam desafios semelhantes, ainda que em contextos diferentes.


