Apenas uma em cada quatro pessoas trans tem emprego com carteira assinada no Brasil. O dado faz parte de um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que analisou a presença desse grupo no mercado formal. A taxa de participação é de 25%, enquanto entre a população geral o índice chega a 31,8%, considerando brasileiros de 14 a 64 anos.
Além do acesso reduzido, a diferença também aparece no salário. Segundo os dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) de 2023, o rendimento médio das pessoas trans com vínculo formal é de R$ 2.707, valor 32% menor do que a média nacional, de R$ 3.987. Mesmo entre trabalhadores com o mesmo nível de escolaridade, a diferença se mantém.

Homens trans se aproximam da média; mulheres enfrentam mais barreiras
Quando observamos o recorte por gênero, as distâncias ficam mais evidentes. Homens trans têm uma taxa de participação de 31,1%, número próximo ao da população masculina geral, de 35,1%. Já entre mulheres trans, o percentual cai para 20,7%, bem abaixo da média feminina, de 28,4%.
A desigualdade também se reflete na renda: uma pessoa trans com ensino superior completo ganha, em média, 27,6% a menos que alguém com o mesmo nível de estudo na população total. Entre quem não tem diploma superior, a defasagem chega a 23,1%. Para o Ipea, o menor acesso a empregos de qualidade está ligado tanto a fatores educacionais quanto à discriminação direta no processo de contratação.
Mapeamento inédito e concentração entre os mais jovens
Para entender essas diferenças, o Ipea utilizou uma metodologia inédita baseada no cruzamento de registros da Receita Federal com dados da Rais. A partir do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), os pesquisadores conseguiram identificar quem alterou nome ou gênero entre 2023 e 2025, ou registrou nome social. O processo permitiu localizar 38.758 pessoas trans em um universo de 157,4 milhões de brasileiros.
Entre as pessoas identificadas, 47,6% realizaram alteração de nome e gênero no período recente, e 45,8% registraram nome social. A maioria está na faixa de 18 a 30 anos, o que representa 59,8% do grupo total. Segundo os autores do estudo, esse dado reflete o aumento da visibilidade social e o maior acesso aos direitos de retificação civil entre os mais jovens.

A distribuição regional revela um cenário desigual. Nas regiões Norte e Nordeste, a proporção é menor, o que pode indicar tanto subnotificação quanto dificuldades de acesso a serviços públicos e jurídicos.
Setores de baixa remuneração concentram a maioria dos empregos
O mercado de trabalho formal absorve pessoas trans principalmente em setores de menor remuneração. Mais da metade dos vínculos está concentrada em três áreas: comércio, serviços administrativos e alimentação e hospedagem. Esses ramos são conhecidos por oferecer salários mais baixos e alta rotatividade. Já no serviço público, a presença é reduzida — apenas 5,5% das pessoas trans empregadas têm cargos estatutários, proporção duas vezes menor que a média da população geral.
As diferenças regionais também pesam. O Nordeste apresenta a menor taxa de emprego formal entre pessoas trans, com 17,8%, seguido do Centro-Oeste, com 24%. No Sul e no Sudeste, os índices são um pouco mais altos, mas ainda inferiores à média nacional. Mesmo em regiões com mais oportunidades, as barreiras à contratação e à permanência continuam expressivas.
Raça e gênero ampliam as desigualdades
Outro ponto abordado pelo estudo é a combinação de desigualdades. Pessoas trans negras, pardas e indígenas recebem menos do que as brancas. Uma pessoa trans preta, por exemplo, ganha 80% do salário de uma pessoa trans branca e 26% a menos que uma pessoa preta da população geral. Essa sobreposição de preconceitos, tanto de gênero, raça e classe, ampliam as dificuldades de acesso a empregos estáveis e bem pagos.
A ausência de informações oficiais sobre identidade de gênero vinha sendo um obstáculo para a formulação de políticas públicas. A nova metodologia do Ipea permite, pela primeira vez, identificar essa população em registros administrativos, mas ainda não alcança todo o grupo. Pesquisas da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) estimam que mais de 60% das pessoas trans no Brasil não fizeram a retificação de nome ou gênero. Muitas desistem do processo devido a custos, burocracia ou medo de sofrer discriminação. É provável, portanto, que as condições de emprego e renda desse segmento sejam ainda mais precárias do que mostram os números oficiais.
Entre as sugestões apresentadas pelo estudo está a ampliação da coleta de dados sobre identidade de gênero em cadastros públicos, o que permitiria acompanhar com mais precisão as desigualdades. O Ipea também recomenda incluir informações sobre microempreendedores individuais e trabalhadores domésticos, já que boa parte das pessoas trans atua fora do mercado formal.
Formação educacional pode fazer a diferença
Os pesquisadores destacam que as diferenças salariais e de acesso não se explicam apenas pela formação educacional, mas também por barreiras estruturais. Falta de oportunidades, discriminação em entrevistas e ausência de políticas de inclusão dificultam a entrada e a permanência desse grupo no mercado de trabalho. A análise mostra que mesmo quando as pessoas trans alcançam níveis mais altos de escolaridade, continuam recebendo menos e tendo menos chances de crescimento profissional.
A pesquisa reforça que a desigualdade de renda não é resultado de escolhas individuais, mas de um conjunto de fatores que ainda limitam o acesso a oportunidades iguais. Ampliar a presença de pessoas trans em empregos formais e reduzir a distância salarial dependem de ações coordenadas entre governos, empresas e sociedade. O reconhecimento dessa realidade é o primeiro passo para que políticas públicas possam, de fato, transformar o cenário de exclusão que os dados revelam.


