O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizado neste domingo, 26 de outubro, em Kuala Lumpur, na Malásia, marcou o primeiro diálogo oficial entre os dois líderes desde o retorno de Trump à presidência dos Estados Unidos. O foco da reunião foi o chamado “tarifaço” — tarifas de 50% impostas aos produtos brasileiros, incluindo aço, alumínio e minerais críticos.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou o encontro, que durou cerca de 50 minutos, como “positivo e descontraído”. Segundo ele, o presidente norte-americano se comprometeu a instruir sua equipe a iniciar as negociações técnicas com o Brasil para reavaliar as medidas comerciais.
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“O presidente Trump declarou que dará instruções à sua equipe para iniciar o processo de negociação bilateral com o Brasil”, afirmou Vieira, em coletiva à imprensa.
As tarifas aplicadas pelos Estados Unidos têm causado impacto direto nas exportações brasileiras de aço, que somaram US$ 3,6 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões) em 2024, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
O aumento das tarifas reduziu a competitividade dos produtos nacionais e provocou retração nas exportações para o mercado americano, que tradicionalmente absorve cerca de 10% da produção brasileira do setor.
O que foi tratado entre os dois líderes
Durante a reunião, Lula reiterou o pedido de suspensão temporária das tarifas enquanto durarem as negociações. O presidente também destacou o interesse do Brasil em expandir a cooperação nas áreas de energia limpa e minerais estratégicos, como o nióbio e o lítio, ambos considerados essenciais para a indústria de tecnologia e transição energética.
De acordo com Mauro Vieira, Trump demonstrou disposição em avaliar o tema, mas não apresentou condições específicas para o início das conversas. “O tom foi de pragmatismo econômico e de reaproximação política”, relatou o chanceler.
Fontes diplomáticas informaram que o encontro também tratou de temas geopolíticos, como a crise na Venezuela. Lula teria se oferecido para atuar como interlocutor entre Washington e Caracas, uma tentativa de reposicionar o Brasil como mediador regional após anos de afastamento da diplomacia sul-americana.
Próximas etapas das negociações
As equipes técnicas dos dois países devem iniciar os trabalhos nesta segunda-feira, 27 de outubro, às 8h da manhã no horário local, ainda na Malásia. Pelo lado brasileiro, participarão o secretário-executivo do MDIC, Márcio Rosa, e o assessor internacional do Planalto, Audo Faleiros. Do lado americano, estarão presentes representantes do Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) e do Departamento do Tesouro.
O objetivo imediato é definir um cronograma de reuniões e identificar os setores prioritários para renegociação. Segundo o Itamaraty (órgão do Poder Executivo, responsável pelo assessoramento do Presidente da República), o Brasil continuará pressionando pela suspensão temporária das tarifas até que um acordo mais amplo seja firmado.
A expectativa é que a primeira rodada técnica produza um relatório conjunto sobre o impacto econômico das medidas e sobre possíveis compensações tarifárias. Em 2023, por exemplo, o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos movimentou US$ 87,8 bilhões (cerca de R$ 486 bilhões), segundo dados do Departamento de Comércio americano. As tarifas, porém, têm elevado custos e reduzido margens de lucro de exportadores brasileiros.
Possível visita oficial e novos temas na agenda
Durante a conversa, Trump manifestou interesse em realizar uma visita oficial ao Brasil nos próximos meses. Lula também afirmou que pretende ir a Washington “com prazer”, segundo Mauro Vieira. Ainda não há data definida para os encontros, que devem incluir empresários e autoridades dos dois países.
O governo brasileiro vê a aproximação como oportunidade para destravar acordos suspensos desde 2020 e reequilibrar as relações comerciais com os Estados Unidos, principal parceiro econômico fora da Ásia. O Brasil também tenta inserir na pauta temas como biocombustíveis, energia limpa e cooperação em tecnologia 5G, áreas de interesse estratégico para ambos os lados.
A reunião em Kuala Lumpur ocorreu à margem da 47ª cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). Além de Lula e Trump, participaram o chanceler brasileiro Mauro Vieira, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o representante comercial Jamieson Greer.
Contexto internacional e cautela diplomática
O encontro marca um passo relevante de reaproximação, mas ainda cercado de cautela. Trump enfrenta pressões domésticas de setores industriais americanos que defendem a manutenção das tarifas como forma de proteger empregos locais.
Por outro lado, o Brasil tenta evitar retaliações em outros setores sensíveis, como o agronegócio, que movimentou US$ 163 bilhões (aproximadamente R$ 902 bilhões) em exportações em 2024, de acordo com o Ministério da Agricultura.
A postura adotada em Kuala Lumpur indica que as negociações podem avançar em ritmo gradual, com foco em acordos setoriais que envolvam compensações mútuas e metas de abertura comercial.


