A Marcha de Mulheres Negras, que tem construído um projeto político robusto desde 2015, consolidou-se como um movimento essencial na discussão sobre a democracia brasileira e suas insurgências. Nesse percurso de uma década, o movimento não apenas levou ao centro da luta o que estava à margem, mas também se tornou um lugar estratégico para pensar a justiça social.
O debate central da Marcha reside na compreensão de que mulher e economia são fatos que se entrelaçam profundamente, especialmente quando se consideram os marcadores de gênero, raça e classe. As fontes indicam que as mulheres negras são a base da economia do cuidado no Brasil, sustentando o país, mas frequentemente permanecendo fora dos espaços de decisão.

O conceito de reparação histórica é a espinha dorsal dessa transformação, exigindo que o Estado brasileiro corrija as desigualdades produzidas por séculos de racismo e exclusão.
A partir dessa base, a Marcha articulou, por exemplo, o Manifesto Econômico das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, pela valorização e regulamentação das ocupações majoritariamente exercidas por mulheres negras. Isso inclui o reconhecimento de profissões historicamente invisibilizadas (como doulas, parteiras tradicionais e catadoras) como trabalho essencial, garantindo previdência social e contratos formais. A luta passa também pela revelação do cuidado não remunerado que sustenta a vida sem salário.
Em entrevista concedida ao SF, Janira Sodré, professora e historiadora pela democracia, pesquisadora, produtora, estrategista da Marcha de Mulheres Negras e mãe de Mariana Sodré, narra em perspectiva os caminhos da Marcha. Confira na integra:
Quando o movimento fala em “reparação histórica” hoje, o que isso significa em termos práticos e políticos? Quais são as três principais demandas concretas que a Marcha levará ao Governo Federal e ao Congresso, pensando em políticas de reparação?
Quando falamos em reparação histórica, falamos da responsabilidade do Estado brasileiro em corrigir as desigualdades produzidas por séculos de escravidão, racismo e exclusão. Isso significa garantir acesso real a direitos (educação, saúde, terra, moradia, segurança e poder político) e reconhecer que as mulheres negras têm sido fundamentais na sustentação do país, mas continuam fora dos espaços de decisão.
Em termos práticos, reparação envolve uma reforma agrária e urbana que assegure terra, moradia e titulação de territórios quilombolas e de outras comunidades tradicionais, além de expandir e garantir políticas de ações afirmativas como mecanismos permanentes de justiça racial. Além disso, reformar as regras fiscais é urgente para impedir que políticas essenciais continuem sendo as primeiras a sofrer cortes. Saúde, educação, assistência e proteção social não podem ser sacrificadas em nome do equilíbrio fiscal.
Politicamente, é reconhecer que a democracia só será plena quando o Brasil enfrentar o racismo de forma estrutural e garantir que nossas vidas, saberes e experiências sejam prioridades no projeto de nação. Difícil elencar apenas três demandas concretas; há muita coisa sendo discutida a partir dos Comitês Temáticos da Marcha, como o de Justiça Reprodutiva e o de Justiça Climática, entre outros.
As mulheres negras são a base da economia do cuidado no Brasil. Como a Marcha articula a pauta da justiça econômica com a valorização e a formalização do trabalho de cuidado, buscando garantir renda e direitos previdenciários para essa maioria?
Em parceria com o Instituto No Front, lançamos o Manifesto Econômico das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que denuncia justamente isso: a desigualdade racial e de gênero que estrutura a economia brasileira.
O manifesto defende a regulamentação e a valorização das ocupações majoritariamente exercidas por mulheres negras, a ampliação de equipamentos públicos e comunitários — a exemplo de creches, lavanderias, restaurantes populares e centros de cuidado a idosos e pessoas com deficiência — e o reconhecimento de profissões historicamente invisibilizadas, como doulas, parteiras tradicionais e catadoras de materiais recicláveis, como trabalho essencial, com previdência social e contratos formais simplificados.
Essa luta também passa pelo reconhecimento do cuidado não remunerado, que sustenta a vida sem salário, e pela criação de uma pesquisa nacional de uso do tempo, capaz de revelar, diante do mundo, a sobrecarga desigual que recai sobre as mulheres. Essa produção de dados precisa vir acompanhada de campanhas públicas que convoquem os homens a compartilhar a responsabilidade pelo cuidado. A gente acredita que valorizar o cuidado é uma forma de reparação por meio da dignidade e da autonomia.
Observamos um aumento, ainda que lento, da representação de mulheres negras na política e em cargos de liderança. Como a Marcha avalia essa inserção? Há uma estratégia para fortalecer candidaturas e a atuação dessas mulheres em 2026 e nos próximos ciclos eleitorais?
Observamos, de fato, um avanço na presença de mulheres negras na política e em espaços de liderança. Para nós, esse avanço é ganho do movimento, não concessão: é fruto da organização, da mobilização e do protagonismo de mulheres negras que, desde sempre, levaram ao centro da luta o que está à margem, fazendo deste um lugar estratégico para pensar a justiça social.
Como dizia Lélia Gonzalez, que nos ensinou que raça, gênero e classe se atravessam, e que a mulher negra precisou “se tornar negra” politicamente para resistir, a inserção das mulheres negras na política não pode ser vista como simples inclusão, mas como parte de um projeto de transformação.
Ao mesmo tempo, sabemos que ocupar o lugar não é o final da jornada. Quando eleitas, mulheres negras enfrentam diversos desafios. Um dos mais graves é a violência política de raça e gênero.
Como não lembrar de Marielle Franco? Uma mulher negra, favelada, eleita com mais de 46 mil votos no Rio, que denunciava a violência estatal e foi assassinada — um crime que jamais esqueceremos e que nos mostra que o avanço da representação não pode ser visto isoladamente: deve ser acompanhado de garantias institucionais para que mulheres negras disputem, tenham espaço, conquistem e sejam protegidas.
É também por isso que temos repetido que é chegada a hora de o presidente Lula assumir o compromisso de nomear uma mulher negra para o Supremo. Em mais de um século de existência, o STF nunca teve uma ministra negra — e isso diz muito sobre o país que ainda somos. A nomeação seria um gesto de coerência com o projeto de democracia que defendemos e que, durante as eleições, tem sido cooptado por partidos que se dizem progressistas. Trata-se de reconhecer que mulheres negras são capazes, preparadas e essenciais para moldar as decisões que afetam milhões de brasileiras e brasileiros. Sem dúvidas, a Marcha cria campo político para o fortalecimento de lideranças negras.
A Marcha de 2015 uniu diferentes segmentos. Como está sendo construído o diálogo com a diversidade de vozes dentro do próprio movimento, incluindo mulheres negras LGBTQIAPN+, quilombolas, indígenas, de matriz africana e mulheres jovens? Como a Marcha garante que a pauta dessas diferentes identidades seja contemplada?
Desde 2015, estamos construindo um projeto político que reconhece que não existe uma única experiência de ser mulher negra no Brasil. Hoje, a Marcha se organiza em mais de 257 comitês espalhados por todo o país, além dos comitês temáticos, que aprofundam pautas específicas como economia, juventude, educação, mulheres quilombolas, mulheres LGBTQIAPN+, mulheres evangélicas, mulheres de matriz africana e tecnologia.
Esses espaços, compostos por organizações, ativistas ou mulheres que não estão organizadas politicamente, são o coração da Marcha: é neles que a gente se renova, se escuta e se reconhece em sua pluralidade.
Cada comitê territorial traz as demandas concretas dos seus territórios e realidades, enquanto os temáticos ajudam a construir agendas nacionais articuladas. É essa capilaridade que garante que a Marcha continue sendo um movimento vivo, enraizado e verdadeiramente diverso, onde todas as mulheres negras têm voz e lugar de decisão.
A Marcha é um ato de grande escala. Como o movimento tem se organizado financeiramente para garantir que mulheres de todas as regiões, especialmente as de menor renda e de áreas rurais/quilombolas, consigam chegar a Brasília com autonomia e segurança?
Recebemos apoios que foram canalizados para a estrutura da Marcha no dia 25 de novembro. Por ora, os estados estão se mobilizando autonomamente com as alianças locais. Temos muitos ônibus confirmados Brasil afora e mais de 30 países organizando suas delegações. Sem dúvidas, a segurança e a acessibilidade são pontos importantes, e estamos acompanhando isso de perto junto às delegações.
A Marcha também recebe apoio de sindicatos e da filantropia voltada aos direitos humanos, além de as mulheres se organizarem financeiramente por meio de rifas, festas, eventos culturais e outras iniciativas para viabilizar a participação no evento.
O tema da violência de gênero e racial contra a mulher negra é crônico. Além da denúncia, quais são as propostas da Marcha para fortalecer as políticas de segurança e justiça, incluindo o enfrentamento à violência policial, que afeta diretamente os filhos e companheiros das mulheres negras?
A violência racial e de gênero contra as mulheres negras é uma ferida aberta que atravessa gerações. Não à toa, em 2015 marchamos contra o racismo, a violência e pelo bem viver, entendendo que já era preciso transformar as estruturas que produzem e sustentam essa violência. Por isso, nossa pauta de segurança e justiça parte da vida das mulheres negras e de seus territórios — e não da lógica punitivista que só reforça o encarceramento e a morte da população negra.
Defendemos uma política nacional de enfrentamento à violência racial e de gênero que envolva os três níveis da federação, com orçamento garantido e participação direta das mulheres negras na formulação e no controle social dessas políticas. Isso inclui o fortalecimento das delegacias especializadas de atendimento à mulher, a criação de núcleos de enfrentamento ao racismo institucional dentro das polícias e do sistema de justiça, e a formação antirracista obrigatória para agentes públicos, especialmente na segurança e na saúde.
A Marcha também propõe um novo pacto de segurança pública, voltado à preservação da vida e não à militarização dos territórios. Isso significa enfrentar a violência policial que atinge desproporcionalmente os filhos, companheiros e familiares das mulheres negras, responsabilizando o Estado por cada morte e cada desaparecimento.
Por fim, defendemos a ampliação de políticas de cuidado, proteção e reparação às mulheres negras que são vítimas diretas ou indiretas da violência, reconhecendo que cada mulher que perde um filho para a violência estatal é também vítima de uma política racista que precisa ser desmontada.



