Na década de 1980, quando eu ainda era criança, o noticiário brasileiro falava de guerras que pareciam distantes. Eu perguntava ao meu pai quem tinha razão nos conflitos do mundo, no Oriente Médio, a exemplo da guerra entre Irã e Iraque, que tanto marcou aquele período.
Eram lugares que soavam quase abstratos para uma menina sentada no sofá de casa, na capital federal. Ele explicava o contexto, dava sua opinião e, ao final, dizia algo que nunca esqueci: “em algum momento, todos deixam de ter razão, porque quem sofre é a população”.
Naquela época, o mundo era muito menos integrado e ainda dividido pela Guerra Fria. A palavra “globalização” sequer fazia parte do vocabulário cotidiano. Os conflitos pareciam confinados a mapas distantes, e seus efeitos demoravam a atravessar fronteiras.
Quatro décadas depois, o tabuleiro é outro. As relações entre países são profundamente interdependentes, os movimentos entre blocos são rápidos e sincronizados, e a geopolítica deixou de ser pano de fundo para se tornar parte central da vida econômica. Hoje, decisões tomadas em Washington, Bruxelas ou Teerã chegam ao Brasil quase em tempo real — e chegam, sobretudo, pelo bolso.

Nas últimas semanas, muito se tem falado sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia e sobre o ganho concreto que pode trazer ao cotidiano dos brasileiros: a formação da maior área de livre-comércio do mundo. O tratado envolve um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, cerca de 25% do PIB (Produto Interno Bruto) global, e prevê a redução ou eliminação de tarifas em mais de 90% do comércio entre os blocos.
Produtos europeus tendem a ficar mais acessíveis por aqui — vinhos, azeites, medicamentos, máquinas. Do outro lado, milhares de produtos brasileiros passam a ter acesso facilitado ao mercado europeu. É um acordo a ser celebrado. Mas não há como comemorar isoladamente.
Esse avanço ocorre em um momento de forte instabilidade na economia mundial. Tensões entre Estados Unidos e Irã reacendem temores no Oriente Médio. A relação entre Estados Unidos e União Europeia se deteriora diante de disputas estratégicas envolvendo a Groenlândia. Tarifas reaparecem como instrumento político. A cooperação internacional passa a ser cada vez mais condicional.
Quando o mundo muda, mas o medo permanece
É exatamente essa mudança de clima que começa a dominar os debates em Davos. Não se fala no fim da globalização, mas em sua transformação. A economia avança, mas a confiança global se fragilizou. A cooperação continua existindo, porém mais pragmática, seletiva, guiada por interesses claros. Essa virada começou na pandemia e agora se consolida: menos idealismo, mais cálculo. E o cálculo aparece nos preços.
Mesmo com o barril de petróleo girando em torno de US$ 60, a gasolina no Brasil segue acima de R$ 6 por litro, chegando perto de R$ 7 em algumas regiões. A queda do petróleo lá fora não vira alívio imediato aqui. Combustível caro encarece o frete — e o frete encarece o alimento. Em 2025, a inflação oficial (IPCA) fechou em 4,26%, mas o número frio esconde onde o aperto realmente dói.
A energia elétrica acumulou alta superior a 12% no ano, segundo o IBGE, mesmo com subsídios e mecanismos de contenção. A alimentação, que pesa cerca de um quinto do orçamento das famílias, voltou a pressionar o custo de vida. E esse impacto não se limita ao supermercado: ele aparece também no material escolar, que fica mais caro com o aumento do papel, do transporte, da energia e dos insumos importados, exatamente no momento em que famílias tentam organizar o ano dos filhos.
Em momentos como esse, o ouro costuma reaparecer como ativo de estabilidade no mundo, especialmente em regiões diretamente afetadas por conflitos. Mas, para o brasileiro médio, ele não é refúgio cotidiano — como já escrevi em outra crônica neste espaço, “O Ouro na Mão Delas”. Aqui, a estabilidade não está em cofres, mas na capacidade de pagar as contas do mês.
O custo invisível da instabilidade global
É assim que a geopolítica deixa de ser discurso e vira rotina. Ela aparece no tanque, na fatura, no carrinho do supermercado e na lista de material escolar. E, junto com ela, reaparece um sentimento antigo: o medo. Medo da instabilidade, da perda de poder de compra, de um futuro cada vez mais incerto — principalmente para os jovens, que já crescem em um mundo acelerado, volátil e imprevisível.
Por isso, mais do que neutralidade vazia ou bravatas, este é um momento que exige inteligência estratégica e reconstrução de confiança. Confiança entre países, entre instituições e, sobretudo, das pessoas em relação ao amanhã. O Brasil tem um papel central na segurança alimentar global, tem mercado, tem ativos e tem responsabilidade. Proteger esse espaço é proteger a vida cotidiana.
E se há algo que permanece verdadeiro, independentemente da crise, é o que eu diria aos jovens hoje: educação continua sendo a âncora mais segura em tempos de instabilidade. Ela não controla o preço do petróleo nem silencia conflitos, mas amplia horizontes, repertório, cria alternativas e ajuda a reconstruir a confiança quando o mundo parece sair do eixo.
No fim das contas, meu pai estava certo. Em conflitos globais, ninguém vence de verdade. Mas alguns sentem antes. E, no mundo de hoje, o primeiro impacto quase sempre chega pelo bolso.


