O empresário e bilionário alemão Klaus-Michael Kühne morreu aos 89 anos, em 24 de agosto de 2026, deixando uma fortuna estimada em cerca de R$ 248,7 bilhões. Como ele não teve filhos, o patrimônio não passou para herdeiros diretos: foi destinado à Fundação Kühne, instituição sem fins lucrativos que o empresário criou com os pais há cerca de 50 anos.
A transferência transforma a fundação em uma das organizações beneficentes mais ricas da Europa.

Kühne vivia em Schindellegi, no cantão de Schwyz, na Suíça. Cantão é como são chamadas as regiões que formam a Suíça, com regras próprias em várias áreas. Schwyz é um dos dois cantões suíços que não cobram imposto sobre heranças, tanto de familiares quanto de terceiros.
Por isso, a passagem dos bens para a Fundação Kühne não teve cobrança desse imposto. A operação também não funciona como uma herança recebida por uma pessoa: os ativos passam a pertencer à própria fundação, que é uma organização voltada a determinados objetivos e administrada por um conselho de curadores.
O que ficou para a Fundação Kühne?
Não se trata apenas de dinheiro em contas bancárias. A fundação passa a concentrar uma série de empresas e participações que faziam parte do patrimônio do empresário.
Entre os principais ativos estão a participação majoritária na Kühne+Nagel, empresa criada por Kühne que se tornou uma gigante mundial do transporte de mercadorias; 30% da Hapag-Lloyd, uma das maiores empresas de transporte marítimo de contêineres do mundo; 15% da Brenntag, grupo do setor de produtos químicos; uma participação na empresa de transporte de passageiros Flix; mais de um quinto da companhia aérea Lufthansa; e imóveis, incluindo o hotel Fontenay, em Hamburgo.
Grande parte da fortuna vinha justamente da Kühne+Nagel. Segundo o índice de bilionários da Bloomberg citado no material, cerca de 60% da empresa estava ligada a Kühne, e seu patrimônio líquido mais do que quadruplicou na última década.
O empresário também teve participações em outros negócios ao longo da carreira. Em 2016, por exemplo, comprou por cerca de R$ 943 milhões cerca de um quinto da VTG, maior empresa privada de aluguel de vagões da Europa. Dois anos depois, vendeu a participação por cerca de R$ 1,77 bilhão.
Por que a fortuna não foi para herdeiros?
Kühne e a mulher, Christine, se casaram em 1989 e não tiveram filhos. A ausência de descendentes diretos fez com que a Fundação Kühne se tornasse o destino planejado para o patrimônio.
A fundação foi criada pelo empresário e pelos pais há cerca de cinco décadas e já administrava 20 organizações subsidiárias, além de empregar cerca de 800 pessoas.
A transferência dos ativos já fazia parte de uma estrutura montada muito antes da morte do empresário. A propriedade da Kühne Holding, empresa privada que reunia os principais negócios de Kühne, passa para a fundação, segundo informações do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung citadas no material.
Essa organização será supervisionada por um conselho de curadores que inclui Christine e um pequeno grupo de conselheiros de longa data do empresário.
Por que a Suíça faz diferença nessa história?
Kühne morava na Suíça desde 1975 e havia demonstrado insatisfação com o sistema econômico e tributário da Alemanha. Em 2022, em entrevista à emissora pública alemã NDR, afirmou que o Estado alemão não conseguia administrar a economia de forma adequada. A mudança de seus assuntos pessoais e empresariais para a Suíça é apontada no material como parte desse contexto.
No cantão de Schwyz, onde ele vivia, não existe imposto sobre heranças. As fundações também não pagam esse tipo de imposto porque, nesse caso, não há uma pessoa recebendo uma herança: o patrimônio é transferido para a própria instituição.
A Suíça chegou a rejeitar, em novembro, uma proposta de criação de um imposto federal de 50% sobre heranças e doações acima de R$ 271 milhões, equivalente a 50 milhões de francos suíços, medida que atingiria patrimônios muito elevados.
Após a rejeição, a ministra das Finanças, Karin Keller-Sutter, afirmou que a proposta poderia prejudicar a atratividade do país.
Quanto dinheiro a Fundação Kühne movimenta?
A organização já tinha uma atuação própria antes de receber a fortuna do empresário. Em 2026, seu orçamento era de cerca de R$ 733 milhões, o equivalente a 135 milhões de francos suíços.
O dinheiro é distribuído entre diferentes áreas. Cerca de 42% vão para formação em logística, 20% para medicina, 15% para projetos ligados ao clima, 11% para logística humanitária e 7% para cultura.
O modelo mostra que a fundação não atua apenas em uma área. A logística, que é o setor ligado ao transporte e à organização da movimentação de mercadorias, é o principal foco, mas a entidade também mantém projetos em saúde, meio ambiente, ajuda humanitária e cultura.
Fundação fica entre as maiores da Europa
Com a incorporação dos ativos de Kühne, a Fundação Kühne passa a figurar entre as maiores instituições beneficentes do mundo em patrimônio. A maior citada no material é a Fundação Novo Nordisk, da Dinamarca, ligada ao grupo farmacêutico Novo Nordisk, com cerca de R$ 548 bilhões em ativos no fim de 2025.
Também aparecem a Fundação Gates, com cerca de R$ 358 bilhões, e os Tata Trusts, da Índia, com mais de R$ 510 bilhões. O britânico Wellcome Trust, dedicado à pesquisa médica, tinha cerca de R$ 218 bilhões nas contas divulgadas.
A Fundação Kühne, com a entrada da fortuna do empresário, fica em uma faixa próxima à do Wellcome e acima de organizações como a Robert Bosch Stiftung, da Alemanha, que possui cerca de R$ 32,4 bilhões em ativos.
Outro exemplo é a Fundação Carlsberg, da Dinamarca, que possui pouco menos de 30% das ações do grupo Carlsberg e cerca de R$ 9,1 bilhões em outros investimentos.
Quem foi Klaus-Michael Kühne?
Klaus-Michael Kühne ficou conhecido como um dos maiores empresários dos setores de logística e transporte da Europa e chegou a ser considerado o homem mais rico da Alemanha.
Sua estratégia empresarial envolvia comprar e recuperar empresas que enfrentavam dificuldades. Foi assim que construiu a Kühne+Nagel e acumulou participações em grandes companhias de transporte marítimo e aéreo. Além da Hapag-Lloyd e da Lufthansa, seu patrimônio chegou a incluir negócios em produtos químicos, transporte ferroviário e imóveis.
Ao longo dos anos, ele concentrou seus negócios na Kühne Holding, estrutura privada sediada em Schindellegi. Segundo estimativas citadas no material, até 30% de sua verdadeira fortuna pode não ser conhecida publicamente, porque empresas privadas na Suíça não são obrigadas a divulgar relatórios anuais da mesma forma que ocorre em grande parte da Europa.
Com a morte do empresário, a maior parte desse patrimônio deixa de estar ligada a uma pessoa física e passa a ser administrada por uma fundação criada décadas antes, que agora terá sob seu controle participações em algumas das maiores empresas dos setores em que Kühne construiu sua carreira.


