IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%

Sustentabilidade é o maior hit do Rock in Rio 2026

Por

·

Quarenta anos depois de sua estreia, é tentador resumir o Rock in Rio pelos números de público, pelos shows memoráveis ou pelas imagens que viralizam a cada edição. Mas há um legado menos espetacular e, talvez, mais duradouro, construído desde 2001, quando adotou o lema “Por Um Mundo Melhor”: o de ser um laboratório vivo de sustentabilidade para o setor de eventos.

O Rock in Rio mostra que sustentabilidade em grandes eventos vai muito além do discurso: envolve planejamento, critérios de gestão, responsabilidade ambiental e parcerias que geram impacto social | Foto: Reprodução/Divulgação/Rock In Rio/Redes Sociais
O Rock in Rio mostra que sustentabilidade em grandes eventos vai muito além do discurso: envolve planejamento, critérios de gestão, responsabilidade ambiental e parcerias que geram impacto social | Foto: Reprodução/Divulgação/Rock In Rio/Redes Sociais

Não é apenas discurso. O Rock in Rio foi um dos primeiros eventos do mundo a conquistar a certificação ISO 20121, referência internacional em gestão sustentável de eventos. E, neste domingo, 13 de setembro, encerrou sua edição de 2026 entregando, pela terceira vez, o Prêmio Rock in Rio Atitude Sustentável, reconhecimento que já consagrou 40 parceiros desde 2008 e que, mais do que uma premiação simbólica, funciona como um indutor de comportamento dentro da cadeia de fornecedores e patrocinadores do festival.

O que diferencia a iniciativa de tantos “selos verdes” de palco é o rigor por trás da escolha dos vencedores. A curadoria é feita pela Deloitte, parceira de ESG do festival, que avalia os candidatos a partir de critérios concretos: mobilidade, energia, gestão da água, cadeia de valor, gestão de resíduos, reutilização e reciclagem, condições de trabalho, comunicação com o público, uso do espaço e legado.

Esse desenho é exatamente o que torna o modelo replicável. Um festival não precisa ter o porte do Rock in Rio para instituir um prêmio interno que avalie fornecedores por critérios ambientais e sociais auditáveis. Verdadeiramente, o que precisa é de vontade organizacional e de parceria técnica que dê credibilidade ao processo (e isso, nos últimos seis anos, o Brasil conseguiu despontar).

Se cada evento do calendário brasileiro adotasse uma lógica parecida, a pressão por práticas sustentáveis deixaria de ser um discurso de patrocinador e passaria a ser um critério de permanência na cadeia.

Parceiros e projetos reconhecidos

Nesta edição, a Heineken venceu na categoria Marcas e Ativações para espaços acima de 60 m², parceria que já dura 15 anos. Na mesma categoria, mas para ativações menores, a NISSIN levou o prêmio, comemorando também seu quinto ano de presença no festival. Entre os fornecedores operacionais, a Comlurb foi reconhecida pelo trabalho de limpeza urbana que mobilizou 1.750 garis e 230 lideranças na Cidade do Rock.

Mas o destaque que merece um parágrafo à parte é o da AXIA Energia, que subiu ao palco como Destaque Sustentável. A empresa é responsável por um dos projetos mais ambiciosos de descarbonização já atrelados a um evento de entretenimento no Brasil: a compensação de carbono do Rock in Rio de ponta a ponta, com créditos gerados a partir de uma usina na região Norte do país.

O projeto não se limita à métrica ambiental, tendo a parceria do Instituto Socioambiental e a geração de renda para comunidades locais. Ou seja: numa mesma leva, dois pilares que raramente aparecem juntos em relatórios de sustentabilidade de grandes eventos, o da mitigação climática e o do desenvolvimento social direto.

Leandra Peres, executiva da AXIA, explica que a parceria com o festival é parte de uma estratégia de ESG mais ampla da companhia, que vai muito além da descarbonização pontual de um evento. “A descarbonização é um dos meios pelos quais a gente pode ter um impacto positivo na mitigação de riscos climáticos, mas a empresa trabalha muito além disso”.

Segundo ela, a AXIA mantém relacionamento com comunidades em todo o país, por meio de contrapartidas exigidas legalmente e projetos voluntários também onde a empresa aporta recursos, além de mapear riscos climáticos dos próprios ativos para ganhar resiliência no longo prazo.

Já sobre o que sustenta tecnicamente a parceria, ela é direta: “Para conseguir atuar como descarbonizadora de qualquer evento ou de qualquer parceria, a gente precisa ter do outro lado uma companhia que tem a medição do impacto que ela gera, feita de uma maneira muito profissional, auditada, com base em metodologia reconhecida”.

E completa que a aliança com o Rock in Rio nasce de uma tradição já consolidada do festival. “A gente pode entender que a parceria que a gente consegue fazer com o Rock in Rio vem de uma tradição (…) A gente diz: olha, a gente pode ampliar mais esse impacto positivo, vamos — e a parceria saiu a partir dessa vontade das duas partes.”

Escala, impacto e possibilidade de replicação

A dimensão do Rock in Rio também se estende para além dos dias de evento. Na parceria com a Ação da Cidadania, mobilização nacional de combate à fome, foram contabilizados mais de 866 mil pratos de comida doados até o fim desta edição. Na gestão de resíduos, outra operação de grande escala, com a Comlurb recolhendo 40 toneladas de resíduos por dia, das quais 80% eram materiais potencialmente recicláveis.

A grande lição que o setor de eventos deve tirar do Rock in Rio não é “façam um festival sustentável”, e, na real, ser “tratem sustentabilidade como critério de seleção de parceiros, com metodologia e transparência”.

A diferença entre um evento que planta uma horta de fachada e um que audita sua cadeia inteira de fornecedores é a de institucionalizar o critério, dar um palco público a quem cumpre e — o mais importante — repetir o exercício ano após ano até que ele deixe de ser exceção.

Se o Rock in Rio, com sua escala e complexidade logística, consegue sustentar esse modelo há quase duas décadas, a pergunta que fica para o restante do setor é simples: o que está faltando para replicá-lo?

Sobre o autor Edu Carvalho

Jornalista e apresentador. Com mais de uma década na comunicação, passou pela Globo, CNN, Revista Época. É colunista em Ecoa UOL e Projeto Colabora. Filho da Rocinha, cria do mundo.

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.

Publicidade