Leia abaixo a íntegra da entrevista realizada com Danilo Ribeiro:
– Em 1988, o Brasil enfrentava a hiperinflação. Como essa instabilidade econômica impactou a vida cotidiana das pessoas?
Danilo Ribeiro: Muitos são os modos a partir da qual a hiperinflação afetava a vida das pessoas, mas para isso é preciso a gente entender o que de fato é a hiperinflação. A hiperinflação é, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) denominou, uma inflação acima de uma expectativa, e essa expectativa era de 50% a 60%.
Olha como a gente tem hoje esse diálogo a partir de inflação de 4, 5, 6, 10%, é muito estratosférico hoje a gente pensar em uma inflação de 10. O dinamismo da hiperinflação impactava muito numa instabilidade, inclusive de poupança.
Hoje, a gente muito discute sobre as pessoas mais velhas que não sabem guardar dinheiro, mas não é que não conseguia guardar dinheiro, não conseguia criar o hábito, mas eu penso que essa instabilidade se dava principalmente no fator de consumo. E a gente sabe quem é a grande massa que consome, e são os múltiplos produtos que se consomem da cesta básica. Houve mudança, especialmente, no bolso e no consumo dos alimentos.
– A novela também retratava a desigualdade social e as ambições de personagens como Odete Roitman. Como a desigualdade social daquela época se compara à atual e quais avanços e retrocessos podemos observar nesse aspecto?
A desigualdade social de antes é muito similar à de hoje, porém somos hoje digitalizados e isso permite um certo avanço. A gente não tinha acesso à educação, saúde e moradia. Esses planos de saúde universal, o Sistema Único de Saúde, a própria consolidação das escolas divididas em setores de ensino, ou seja, tudo o que era um grande privilégio, se tornou mais acessível.
Mas ainda assim, as desigualdades, especialmente de renda, ainda existem com muita latência, e as ambições de personagens como Odete Roitman, buscando se tornar uma nobreza, buscando se tornar uma aristocrata, buscando ser uma figura de grande poder, mas que é uma peça numa grande engenharia econômica, dos grandes donos do capital, mas ainda assim alguém que está acima de uma mediana renda, alguém já de uma classe mais abastada.
Há profundo desprezo, seja pela que a gente vai denominar como classe trabalhadora a partir de um conceito marxista, ou mesmo pelo povo, pela própria população, alguém que tem um grande repúdio.
– Diferente de 1988, o Brasil não está isolado e é um player importante globalmente. Mas há desafios. Quais são, a seu ver, os principais?
Não estamos mais isolados, mas também ninguém mais está. Acredito que o Brasil ainda não é um país soberano como não era naquele momento, só que naquele momento muito menos. Tanto que havia uma dependência do Fundo Monetário Internacional (FMI), havia essa grande mudança de moedas constantes, havia pouca definição do que seria a matriz produtiva do Brasil.
Brasil ainda com aquela ideia dos anos quase 50, que era o celeiro do mundo. O celeiro do mundo porquê? O Brasil é um grande quintal, um quintal que se produz muita coisa, muita coisa, especialmente no sentido de grãos, abastece o mundo, porém não consegue se desenvolver economicamente igual outros países, outros players.
A situação da China era, claro, com todas as características que cabem para fazer um comparativo, mas a China também era um país agrário. O Brasil é um país agrário. A China foi um país agrário e se mantém em algumas províncias, o que talvez também seja dada as características diferentes. Também tinha as suas províncias, então, com essas diferenças, que são os estados brasileiros, ainda possuem setores rurais lá.
Mas olha o que é o desenvolvimento tecnológico do setor chinês, especialmente para serviços e produtos. É muito interessante. Precisamos desenvolver o setor de pesquisa brasileiro, seja no próprio celeiro do mundo, seja se quiser ainda se manter como setor agrário, o que muitos países já não querem, inclusive a China, e por isso compra da gente, por escolha própria, porque terreno eles têm.
Eles têm território para isso, mas não eles preferem comprar da gente, porque eles estão usando a. Estão usando seu dinamismo para outras frentes ligadas ao setor de pesquisa e tecnologia. Então, essa busca por soberania é o que pode fazer com que o Brasil se destaque, mais do que ser apenas o maior país da América Latina.
– Considerando as mudanças e os desafios que o Brasil enfrentou desde 1988, qual é o legado daquele período para o Brasil atual? E quais são as suas perspectivas para o futuro do país em termos econômicos e sociais? Há chance de retrocesso?
Penso que o legado principal é o brasileiro, que ainda com muita dificuldade de ascensão social, ascensão econômica, consciência política, continua sendo alguém extremamente esforçado. Ele, o povo brasileiro por si, é batalhador.
Não gosto de ser apocalíptico, mas precisamos pensar o que estamos fazendo e conseguir organizar a infraestrutura de um país que tem uma dimensão continental e pouco ainda se desenvolveu. E socialmente, o direito universal de saúde, de educação, de renda. Quero e acredito naquele mesmo brasileiro do início da questão, nas mentes pensantes pensarem e dinamizarem, pra fazerem um Brasil produtivo.


