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“Cidades de 15 minutos” ganham espaço no Brasil

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O conceito de “cidade de 15 minutos” foi desenvolvido pelo urbanista franco-colombiano Carlos Moreno e se tornou popular após a pandemia da covid-19. A proposta defende que todos os cidadãos tenham acesso a serviços essenciais — como trabalho, escolas, mercados, centros de saúde, lazer e cultura — a até 15 minutos de caminhada ou pedalada de suas casas.

A ideia é promover uma vida urbana mais sustentável, reduzir o uso do transporte motorizado, melhorar a qualidade de vida e estimular a economia local. Ao nível internacional, cidades como Paris, Melbourne e Portland já têm políticas públicas voltadas a esse modelo.

No Brasil, iniciativas inspiradas no conceito começam a surgir em diferentes capitais e municípios, com adaptações à realidade social e urbana local.

São Paulo e o zoneamento para bairros mais autossuficientes

A cidade de São Paulo tem sido uma das pioneiras na adoção de elementos da cidade de 15 minutos. A revisão do Plano Diretor Estratégico, aprovada na Câmara Municipal em 2023, prevê incentivo à criação de centralidades nos bairros, com serviços e empregos mais próximos das residências.

De acordo com a Prefeitura de São Paulo, o objetivo é reduzir deslocamentos longos e melhorar a mobilidade urbana. Um dos instrumentos para isso é o uso misto do solo, que permite a construção de imóveis residenciais e comerciais no mesmo local, criando bairros mais autossuficientes.

No distrito da Lapa, por exemplo, a implementação de rotas cicloviárias, reformas em calçadas e a criação de áreas verdes têm facilitado o acesso da população a serviços diários. Dados da CET-SP indicam que, entre 2021 e 2024, o número de ciclistas que utilizam a ciclovia da Lapa cresceu 38%.

Leia também: Rio de Janeiro: saiba quanto custa morar na cidade em 2025

Moradores circulam a pé por área revitalizada de bairro central em São Paulo, onde iniciativas inspiradas na "cidade de 15 minutos" buscam aproximar serviços essenciais do cotidiano das pessoas | Foto: Reprodução/Canva

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Moradores circulam a pé por área revitalizada de bairro central em São Paulo, onde iniciativas inspiradas na “cidade de 15 minutos” buscam aproximar serviços essenciais do cotidiano das pessoas | Foto: Reprodução/Canva

Recife e o modelo de vizinhança sustentável

Em Recife, a iniciativa “Cidade 15 Minutos” integra o projeto de requalificação urbana do Bairro do Recife, área histórica que concentra polos de inovação, espaços culturais, comércio e moradias. A prefeitura trabalha para tornar a região um polo de moradia, trabalho e lazer integrados.

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, foram investidos cerca de R$ 30 milhões entre 2022 e 2024 em reformas de calçadas, criação de zonas de pedestres, melhoria na iluminação pública e apoio a empreendimentos de pequeno porte. O objetivo é atrair novos moradores e fomentar a economia local sem depender de grandes deslocamentos.

O plano de mobilidade da cidade, aprovado em 2022, prevê a ampliação da malha cicloviária em mais de 100 quilômetros até 2026, conectando bairros periféricos ao centro.

Curitiba investe em mobilidade e espaços de convivência

Conhecida por suas inovações em transporte público, Curitiba também vem adotando princípios da cidade de 15 minutos. O projeto Bairro Novo da Caximba, iniciado em 2021, tem como foco a urbanização de uma área de ocupação irregular com moradias, escolas, postos de saúde, espaços de lazer e comércios.

Com orçamento total de R$ 230 milhões, oriundos de financiamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o projeto inclui a construção de 1.147 unidades habitacionais e deve beneficiar diretamente mais de 3 mil famílias. A proposta visa integrar moradia e infraestrutura de forma que os moradores tenham acesso rápido a serviços básicos.

De acordo com a Prefeitura de Curitiba, mais de 70% dos serviços públicos e privados no entorno do bairro estarão a menos de 2 quilômetros das novas residências, o que equivale a cerca de 15 minutos a pé.

Obstáculos econômicos e sociais para a adoção ampla

Apesar dos avanços, a adoção plena do modelo de cidade de 15 minutos no Brasil enfrenta desafios. A desigualdade no acesso à infraestrutura urbana é um dos principais entraves. Em regiões periféricas, a concentração de serviços essenciais ainda é baixa, exigindo grandes deslocamentos diários da população.

Segundo o IBGE, 36% dos trabalhadores brasileiros gastam mais de uma hora por dia no trajeto entre casa e trabalho. Esse dado reflete a concentração de empregos em regiões centrais e a carência de oportunidades nas áreas residenciais mais afastadas.

Outro obstáculo está na estrutura fundiária das cidades. Muitas áreas urbanas não contam com planejamento que permita o uso misto do solo ou a instalação de serviços básicos, o que exige mudanças na legislação urbanística e investimentos públicos em infraestrutura.

Além disso, a especulação imobiliária é um fator que pode dificultar a expansão do modelo. Com a valorização de áreas que se tornam autossuficientes, há risco de gentrificação, afastando populações de baixa renda desses centros urbanos mais completos.

Benefícios econômicos do modelo urbano descentralizado

Especialistas apontam que, quando bem implementado, o conceito de cidade de 15 minutos pode gerar ganhos econômicos relevantes. A redução do tempo de deslocamento aumenta a produtividade do trabalhador, reduz os custos com transporte e estimula o comércio de bairro.

De acordo com estudo do Instituto Escolhas, políticas públicas que promovem bairros mais integrados poderiam gerar uma economia de até R$ 8 bilhões por ano em mobilidade urbana no Brasil, considerando gastos com transporte coletivo, combustível e impacto ambiental.

Iniciativas como feiras de produtores locais, incentivo a pequenos negócios e ocupação de espaços públicos também geram emprego e fortalecem economias de menor escala, com impacto direto na arrecadação municipal.

Iniciativas seguem em fase de implementação e expansão em diferentes cidades

Com diferentes níveis de avanço, cidades brasileiras estão incorporando elementos do conceito de cidade de 15 minutos como forma de enfrentar os desafios da urbanização, mobilidade e desigualdade. Os resultados dependerão de investimentos contínuos, revisão de políticas urbanas e participação da população na construção de espaços urbanos mais acessíveis.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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