São Paulo vive uma mudança profunda em sua paisagem e forma de morar. O que começou em 2014, com a criação do Plano Diretor Estratégico (PDE), se tornou um marco de reurbanização que pretende equilibrar moradia, mobilidade e crescimento econômico. O plano orienta políticas públicas e investimentos privados até 2029, com foco em reduzir o déficit habitacional e melhorar o acesso da população aos principais serviços da cidade.
De acordo com a Prefeitura de São Paulo, a capital paulista já ultrapassou 30 mil novas unidades habitacionais em 2024. A meta atual é superar 100 mil apartamentos até o fim da década, segundo o programa Pode Entrar, que reúne dezenas de construtoras com projetos voltados à habitação social.
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Crescimento imobiliário e impacto econômico
O setor da construção civil tem papel fundamental nesse processo. Em entrevista à CNN Brasil, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que era prefeito quando o PDE foi sancionado, explicou que a ideia foi transformar a capital financeira do país também em referência em habitação de interesse social.
O presidente da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), Luiz França, destacou que o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) continua sendo essencial nesse contexto. Criado em 2009, o programa facilita o acesso à casa própria para famílias com renda de até R$ 12 mil por mês, oferecendo financiamentos com juros abaixo dos de mercado.
Segundo a Caixa Econômica Federal, que administra a maior parte dos contratos do MCMV, as taxas de juros podem chegar a 4,25% ao ano, enquanto o crédito imobiliário tradicional gira em torno de 10%. Essa diferença torna o sonho da casa própria mais acessível para milhões de famílias brasileiras.
Moradia perto do transporte: tendência crescente
Além de aumentar o número de moradias, o foco atual é melhorar a localização dos empreendimentos. A ideia é trazer a população de volta ao centro e a regiões com fácil acesso a metrô, trem e corredores de ônibus. A medida busca diminuir o tempo gasto no transporte e reduzir a dependência do carro, o que contribui também para um ambiente urbano mais sustentável.
De acordo com Luiz França, da Abrainc, muitas famílias têm procurado morar perto do trabalho ou da escola dos filhos, mas nem todos conseguem arcar com os altos preços das regiões mais valorizadas, como a Faria Lima. Por isso, os novos projetos estão sendo construídos nos eixos com transporte público próximo.
Esse movimento é confirmado por dados do SindusCon-SP, que mostram que os empreendimentos nas áreas centrais cresceram mais de 80% desde 2020.
Mudança no perfil das construções
O aumento da demanda por apartamentos em áreas bem localizadas também mudou o modelo das construções. Segundo Rafael Albuquerque, diretor de desenvolvimento imobiliário da MRV, a redução do número de vagas de garagem tem permitido aumentar a quantidade de unidades por edifício e baratear o preço final dos imóveis.
“Hoje é muito caro bancar carro e morar longe. Reduzir vagas faz sentido para a realidade das famílias e ajuda a tornar os imóveis mais acessíveis”, explicou o executivo.
O adensamento urbano, autorizado pelo PDE, também levou à verticalização da cidade. Quando se observa o horizonte paulistano, é possível ver que os novos prédios se tornaram parte da paisagem e seguem normas técnicas nacionais que padronizam dimensões, conforto acústico e segurança, conforme diretrizes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
Desafios e próximos passos
Mesmo com avanços, especialistas alertam para a necessidade de planejamento local por bairro. O arquiteto Otavio Zarvos, fundador da IdeaZarvos, defende que cada região deve ter políticas específicas, considerando a diversidade do território paulistano.
Ele destaca que as principais preocupações da população continuam sendo mobilidade e segurança. Após atender a essas demandas, o morador busca conforto e qualidade de vida, o que inclui espaços com áreas de lazer, comércio próximo e boa iluminação natural.
Essas mudanças no modo de morar afetam também a economia. O setor imobiliário responde por cerca de 6,2% do PIB nacional, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). Quando há crescimento econômico, o impacto positivo do mercado de construção costuma ser ainda maior.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o metro quadrado médio em São Paulo está em torno de R$ 10.900, conforme levantamento de 2025 da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FipeZap). Esse valor reforça o desafio de tornar a habitação acessível para famílias de baixa e média renda, mesmo com subsídios governamentais.
Equilíbrio entre cidade, moradia e mobilidade
As transformações observadas em São Paulo mostram uma tentativa de equilibrar desenvolvimento urbano, acesso à moradia e mobilidade. Com mais habitações acessíveis e melhor planejamento, o objetivo é construir uma cidade mais integrada, onde o deslocamento seja menor e a qualidade de vida aumente.
Segundo a Prefeitura de São Paulo, o PDE continua sendo revisado e atualizado com base nas mudanças sociais e econômicas da capital. A expectativa é que o modelo sirva de referência para outras cidades brasileiras que enfrentam desafios parecidos.
*Entrevista exclusiva a CNN Money.


