O número de milionários no Brasil chegou a 433 mil pessoas em 2024, segundo o Relatório Global de Riqueza 2025, divulgado pelo banco suíço UBS. Isso significa que, convertendo para a moeda brasileira, esses indivíduos possuem pelo menos R$ 5,48 milhões em patrimônio — considerando o dólar cotado a R$ 5,48 na data do levantamento. Apesar do destaque do país na América Latina, os dados revelam um contraste preocupante: o Brasil está entre os países com maior desigualdade de riqueza no mundo.

O relatório analisou 56 países, responsáveis por mais de 92% da riqueza mundial, e mostrou que os Estados Unidos seguem na liderança global com cerca de 23,8 milhões de milionários, um aumento de 379 mil pessoas em apenas um ano — ou mais de mil novos milionários por dia. Já a China ocupa a segunda posição no ranking, com 6,3 milhões de milionários.
Na América Latina, o Brasil lidera o ranking, seguido de perto pelo México, que conta com 399 mil milionários. O país ocupa a 19ª posição entre os 25 com mais milionários no mundo.
Riqueza cresce no mundo, mas de forma desigual
A riqueza global teve crescimento de 4,6% em 2024, superando os 4,2% de 2023. As Américas, especialmente a América do Norte, impulsionaram esse crescimento, com alta de mais de 11%, favorecidas pela estabilidade do dólar e pela recuperação dos mercados financeiros.
Porém, esse avanço é desigual. Enquanto países como os EUA apresentam não apenas grande número de milionários, mas também uma média de riqueza por adulto elevada (US$ 620 mil, ou cerca de R$ 3,4 milhões), o Brasil está longe desses patamares.
A riqueza média por adulto no Brasil foi estimada em US$ 31 mil — cerca de R$ 170 mil. Esse valor é inferior à média da América Latina, de US$ 34,7 mil (R$ 190 mil), e muito abaixo de países como Suíça (US$ 687 mil, ou R$ 3,76 milhões).
Além disso, os especialistas do UBS destacam que médias não revelam a verdadeira distribuição de riqueza. Um número elevado de milionários pode elevar artificialmente esse valor, enquanto grande parte da população continua com patrimônio muito inferior.
Para uma análise mais precisa, o relatório também apresenta a riqueza mediana, que representa o ponto em que metade da população adulta tem mais riqueza e metade tem menos. No caso do Brasil, esse valor é de apenas US$ 6.482, ou cerca de R$ 35.519 por adulto.
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Desigualdade em foco: Brasil lidera ranking global
O Brasil aparece no relatório como o país com maior desigualdade de riqueza entre os 56 analisados, ao lado da Rússia. O índice de Gini, que mede desigualdade (em que 0 representa igualdade total e 1 representa máxima desigualdade), foi de 0,82 no Brasil em 2024.
Esse valor difere do Gini calculado pelo IBGE para o rendimento domiciliar per capita, que foi de 0,506, o menor da série histórica. A diferença ocorre porque o UBS considera não apenas a renda, mas todo o patrimônio acumulado, como imóveis, investimentos, veículos e outros ativos — descontando as dívidas.
Segundo o relatório, “os valores médios não dizem nada sobre como a riqueza está distribuída”, apontando que, no Brasil, a concentração nas mãos de poucos é um dos grandes entraves para o avanço econômico mais sustentável e justo.
Brasil deve viver onda de transferências de riqueza
Apesar dos desafios, o Brasil se destaca em outra projeção do estudo: será o segundo país com maior volume de heranças previstas para os próximos 20 a 25 anos. De acordo com o UBS, o país deve movimentar quase US$ 9 trilhões em transferências de patrimônio — o equivalente a aproximadamente R$ 49,32 trilhões.
O número só fica atrás dos Estados Unidos, que devem movimentar mais de US$ 29 trilhões (R$ 159 trilhões) no mesmo período. O estudo destaca que a maior parte dessas transferências será “vertical” — ou seja, de pais para filhos.
Esse volume significativo de heranças se deve, principalmente, ao tamanho da população idosa no Brasil. A parcela de brasileiros com mais de 75 anos é quase o dobro da observada no México, por exemplo, o que representa uma grande massa de riqueza acumulada pronta para ser transferida.
Concentração de riqueza e políticas públicas
O relatório acende um alerta sobre a necessidade de políticas públicas voltadas à redistribuição de renda e à inclusão financeira. A concentração de riqueza compromete o desenvolvimento de um mercado interno mais robusto e agrava desigualdades sociais históricas.
Para especialistas, investir em educação financeira, tributar de forma progressiva grandes fortunas e promover acesso mais equitativo ao crédito são caminhos possíveis para reduzir essa disparidade e estimular um crescimento mais inclusivo.
Enquanto o número de milionários cresce, o Brasil continua enfrentando o desafio de democratizar o acesso à riqueza. Sem esse equilíbrio, o crescimento tende a favorecer poucos — e excluir muitos.


