O grave bate e a batida envolvente ecoa. Nas vielas e nos mercados globais, uma certeza paira sobre a cabeça: a favela e o funk viraram conceitos exportáveis — não apenas como fontes de inspiração visual, mas como ativos econômicos e culturais poderosos. Mas será que viraram também parte ativa desse ecossistema?
Recentemente, a nova campanha de verão 2025 da Rabanne, nomeada ‘‘Sunset to Sunrise’’, mergulhou de cabeça no Rio de Janeiro e encontrou no funk carioca a matéria-prima para contar seu novo momento global. A direção foi do francês Emmanuel Cossu e contou com a fotógrafa e artista visual Melissa de Oliveira – nascida e criada no Morro do Dendê. O vídeo foi gravado na Rocinha.
Com perfumes de R$ 800 e roupas que chegam a R$ 10 mil, a marca utiliza o “cenário global” da favela como pano de fundo para seus produtos. Pouco se discute, no entanto, sobre representatividade verdadeira — aquela que exige acesso, contrato e continuidade. Afinal, não se pode pagar uma única vez pela romantização da quebrada enquanto o lucro sobe o morro e a estrutura de desigualdade permanece intacta. É preciso parar de confundir vitrine com valorização. Quando uma grande marca se inspira na favela, precisamos ir além do simples ato de “bondade”.
Potência que vale contrato, não só aplauso
Favela e funk são potências econômicas e culturais. O que já movimentava 10 milhões de reais por mês no Rio de Janeiro nos anos 2000, segundo Hermano Vianna, quadruplicou ao longo de tantos beats. Para além de linguagem artística, o funk é espelho do meio — denuncia, provoca e expressa códigos de um sistema que fala sobre a realidade. Não é à toa que artistas como Allan Pinheiro, Celo Moreira e Maxwell Alexandre são exemplos de como a arte periférica e favelada vende milhões.
Essa desconexão entre a estética e a realidade de quem a produz é um ponto financeiro e ético delicado. A desumanização das pessoas negras e faveladas tira delas a possibilidade de exercer o poder — uma das características mais centrais do que é ser humano. Marcas que capitalizam sobre essa estética sem oferecer retorno real, sem dar lugar de fala a quem vive essa realidade, estão em débito com a comunidade.
É fácil subir a comunidade para um ensaio fotográfico ou uma campanha publicitária. O difícil é subir com ela, tendo compromisso. Sem isso, uma inclusão genuína será apenas megafone sem som. Enquanto artistas da elite são aclamados por transformar violência em prêmio, a essência e o valor econômico e cultural das favelas e do funk merecem um reconhecimento muito mais profundo — e uma parceria que vá além da superfície.

Tão dispostos a isso?


