Nas próximas temporadas, os Estados Unidos estarão no centro do mapa esportivo global. Sediando o Mundial de Clubes da FIFA (2025), a Copa do Mundo (2026) e os Jogos Olímpicos de Los Angeles (2028), o país assume um papel ambicioso: transformar megaeventos em plataformas de projeção econômica, diplomática e cultural.
Mas há um paradoxo evidente. Enquanto abre os portões dos estádios ao mundo, fecha suas fronteiras com políticas migratórias restritivas, retórica nacionalista e medidas comerciais que elevam as tensões.

O novo epicentro esportivo e suas contradições
Os EUA consolidam sua posição como novo centro do esporte mundial. O pontapé inicial foi dado com o Mundial de Clubes 2025: US$ 1 bilhão em premiações, transmissão para mais de 200 países e jogos em pleno verão americano.
Em 2026, o país recebe a maior Copa do Mundo da história — com 48 seleções, 104 partidas e 16 cidades-sede. As receitas devem ultrapassar US$ 11 bilhões, consolidando o futebol como ativo econômico e político em solo americano.
Dois anos depois, os Jogos Olímpicos de Los Angeles devem injetar outros US$ 7 bilhões na economia, atraindo patrocinadores, marcas e investidores em hospitalidade premium.
Esse avanço é acompanhado por um crescente interesse local: segundo pesquisa da Morning Consult (maio de 2025), o futebol já é o segundo esporte favorito entre os jovens da Geração Z nos EUA, ultrapassando o beisebol. A chegada de Lionel Messi e outras estrelas sul-americanas transformaram a Major League Soccer (MLS) em ativo de mídia e audiência.
Abertura esportiva, fechamento institucional
Apesar do entusiasmo esportivo, o ambiente institucional segue instável. Sob novo mandato de Donald Trump, os EUA intensificaram o controle de fronteiras e adotaram uma política comercial agressiva, que já afeta a organização dos eventos.
Em julho de 2025, cartas oficiais foram enviadas a governos do Brasil, México e Canadá — os dois últimos, parceiros na Copa de 2026 — exigindo revisões tarifárias como condição para a normalização das relações comerciais. No caso brasileiro, as tarifas de exportação subiram até 50%, provocando um impasse diplomático com efeitos que extrapolam o comércio.
Embora os documentos tratem de tarifas, não de vistos, o ambiente de tensão compromete a previsibilidade necessária a quem planeja eventos com alcance internacional.
Quando a exclusão se materializa: arquibancadas vazias, atletas ausentes
Durante o Mundial de Clubes 2025, os impactos da crise já foram visíveis. Estádios como MetLife (Nova Jersey) e Mercedes-Benz (Atlanta) ficaram aquém da lotação esperada. Em jogos decisivos, a ausência de torcedores estrangeiros chamou atenção — reflexo direto da dificuldade para emissão de vistos, com prazos que ultrapassam 600 dias em cidades como São Paulo e Lagos.
A crise migratória ganhou força em meio à instabilidade política interna. Mesmo entre residentes, muitos evitaram deslocamentos por medo de retenções e deportações.
Casos concretos mostram como a exclusão impacta o jogo:
- A seleção feminina de vôlei de Cuba foi barrada em Miami após meses de preparação.
- Delegações caribenhas e africanas enfrentaram reestruturações de última hora.
- Hugo Calderano, principal nome do tênis de mesa brasileiro, foi impedido de participar de um torneio nos EUA, mesmo regularmente inscrito. O motivo: uma viagem anterior a Cuba, que ativou uma norma americana de 2015 ainda em vigor. O episódio gerou protesto oficial e grande repercussão. “É frustrante ficar fora por razões que fogem ao meu controle”, disse à CNN Brasil.
Atrasos, gargalos e insegurança: o colapso migratório já começou
Com a previsão de até 40 milhões de visitantes internacionais extras entre 2025 e 2028 (U.S. Travel Association), o sistema consular americano já dá sinais de colapso.
Hoje, o tempo médio de emissão do visto B1/B2 (turismo/negócios) ultrapassa 600 dias em mercados estratégicos como Brasil, Índia e Nigéria, comprometendo o planejamento de viagens logísticas, corporativas e esportivas.
Além disso, aeroportos como os de Nova York, Dallas e Los Angeles já operam acima da capacidade. Relatórios da PwC e da McKinsey recomendam ao menos US$ 2 bilhões em investimentos imediatos para evitar gargalos durante a Copa e os Jogos.
Marcas, reputação e risco real
Megaeventos são vitrines globais — e por isso, também campo de risco reputacional. A exclusão de atletas, o clima de instabilidade e as dificuldades de acesso colocam em xeque não apenas a logística dos torneios, mas a integridade simbólica de marcas que os patrocinam.
Empresas como Visa, Coca‑Cola e Adidas, com contratos globais, já acionam mecanismos formais de gestão de risco reputacional. Relatórios da FleishmanHillard recomendam mapeamento de ameaças e resposta imediata a contextos adversos. A Adidas, por exemplo, alerta em seu relatório anual que associações negativas com questões políticas, migratórias ou de segurança afetam diretamente o desempenho da marca.
Tudo isso impacta um indicador central: o índice de favorabilidade — métrica que expressa a percepção pública sobre uma marca em termos de confiança, admiração e intenção de compra.
As marcas monitoram esse índice de forma contínua, especialmente em situações de:
- Crises geopolíticas
- Tensões diplomáticas
- Exposição negativa ou boicotes
- Megaeventos globais
Segundo o Edelman Trust Barometer, uma queda de 10 pontos pode afetar diretamente vendas e valor de mercado.
Soluções urgentes para uma crise anunciada
A pressão por soluções já chegou aos bastidores da FIFA e do Comitê Olímpico Internacional. Entre as medidas discutidas:
- Criação de um visto esportivo temporário com tramitação expressa
- Corredores diplomáticos especiais para delegações, nos moldes das conferências da ONU
- Cláusulas contratuais que obriguem o país-sede a garantir acesso irrestrito a todos os credenciados
Essas propostas têm apoio de entidades como Global Athlete e Sport & Rights Alliance — e começam a ganhar força em reuniões de cúpula.
Hospitalidade é estratégia
Estádios modernos, transmissões em 4K e contratos bilionários são só parte da equação. O que sustenta um megaevento é a capacidade de acolher.
Se os Estados Unidos querem liderar a indústria esportiva global, precisam oferecer acesso, previsibilidade e respeito às normas da cooperação internacional. Porque hospitalidade, nesse contexto, não é gentileza — é estratégia.
E sem ela, o jogo mais importante pode ser perdido antes mesmo do apito inicial.


