O verão europeu mal começou e já bateu recordes de temperatura. Em países como Espanha, França, Itália e Portugal, os termômetros passaram dos 46ºC em junho, um marco histórico de onda de calor segundo os serviços meteorológicos locais. Mas os efeitos do calor vão além do desconforto: a economia europeia pode sentir diretamente o impacto no Produto Interno Bruto (PIB).
Um relatório recente da Allianz Trade, intitulado “What to Watch”, aponta que a elevação anormal das temperaturas pode reduzir o crescimento do PIB europeu em até 0,5% em 2025. E o cenário não para por aí: a economia global também pode ser afetada, com queda estimada de 0,6%.

Espanha, Itália e Grécia entre os mais afetados pelas ondas de calor
Segundo os economistas Ludovic Subran, Jasmin Gröschl e Hazem Krichene, da Allianz Research, a Espanha pode registrar o maior impacto, com retração estimada de 1,4% em seu PIB. Já a Itália e a Grécia podem ver seus desempenhos econômicos encolherem 1,2% e 1,1%, respectivamente.
Na França, o impacto é menor, mas ainda significativo, com previsão de queda de 0,3% Já a Alemanha, com estrutura econômica mais robusta e menor exposição ao calor extremo, teria impacto limitado a 0,1%.
Esses dados reforçam que os países do sul da Europa, onde a incidência de ondas de calor é maior e a dependência do turismo e do trabalho ao ar livre é mais significativa, tendem a ser os mais vulneráveis.
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Calor extremo reduz produtividade e força trabalho
O estresse térmico, condição em que o corpo humano enfrenta dificuldades de regular a própria temperatura, é um dos principais fatores responsáveis por essa perda econômica. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), esse fenômeno pode provocar uma redução de 2,2% nas horas de trabalho potenciais ao redor do mundo.
Em 2021, o mundo perdeu cerca de 470 bilhões de horas de trabalho por conta do calor excessivo, segundo dados do relatório Lancet Countdown 2022, um aumento de 37% em relação à média registrada entre 1990 e 1999. Isso equivale a uma perda de 139 horas de trabalho por pessoa ao longo do ano.
Outro estudo, publicado no International Journal of Biometeorology, revelou que a capacidade de realizar trabalho físico pode cair 40% em temperaturas de 32°C, aproximadamente meio dia de trabalho perdido. Já com os termômetros marcando 38°C, a produtividade pode despencar em até dois terços.
Impacto também atinge infraestrutura e agricultura
Além da força de trabalho, as ondas de calor afetam diretamente a infraestrutura, a saúde pública e a agricultura. Em Aude, no sudoeste da França, queimadas destruíram cerca de 160 hectares de vegetação em apenas um final de semana. Na Turquia, 50 mil pessoas foram deslocadas por conta dos incêndios florestais nas províncias de Izmir e Manisa.
Essas perdas materiais, casas, lavouras, propriedades, têm reflexos diretos na economia, com prejuízos que superam bilhões de euros. Segundo o relatório da Allianz, os danos causados por ondas de calor podem gerar efeitos econômicos de longa duração, especialmente em países com infraestrutura precária ou sem políticas de mitigação climática eficientes.
Como reduzir os impactos econômicos do calor?
Segundo o estudo da Allianz, a adaptação urbana e no ambiente de trabalho é essencial para reduzir os prejuízos. Algumas medidas simples e de curto prazo incluem:
- Alteração dos horários de trabalho, priorizando manhãs e noites;
- Alertas meteorológicos preventivos;
- Uso de equipamentos de resfriamento, como ventiladores e ar-condicionado, especialmente em locais fechados.
Já no médio e longo prazo, o investimento em planejamento urbano climático pode fazer a diferença. Ações como:
- Implantação de telhados verdes (que podem reduzir em até 0,5ºC a temperatura interna);
- Isolamento térmico em prédios;
- Urbanização com mais áreas verdes;
- Acesso garantido a energia limpa e confiável para climatização.
Em edifícios vulneráveis, essas mudanças podem reduzir as horas de superaquecimento em até 15,3%, segundo o estudo.
O desafio climático é também econômico
O aquecimento global e a intensificação das mudanças climáticas não são apenas um problema ambiental: são um risco crescente para a economia. Para os países europeus, especialmente os do sul do continente, a adaptação a um clima cada vez mais extremo será fundamental para preservar sua produtividade e competitividade nos próximos anos.
Para o Brasil, que depende do comércio exterior com a Europa e compartilha desafios parecidos em regiões como o Centro-Oeste e Nordeste, entender esses impactos também é importante. A construção de cidades e economias mais resilientes ao clima é uma necessidade que já bate à porta.


