O anúncio de Donald Trump sobre a taxação de 50% em produtos brasileiros acendeu o alerta no setor industrial e nas esferas estaduais e federais. Se a medida for adiante, São Paulo será o estado mais afetado do país.
Em 2024, o estado respondeu por US$ 13,5 bilhões em exportações aos Estados Unidos, o que representa 33,6% do total vendido pelo Brasil ao país norte-americano, de acordo com a Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil). Em valores atuais, esse montante equivale a aproximadamente R$ 72 bilhões, considerando o dólar médio de R$ 5,34 ao longo do último ano.
Além de São Paulo, outros estados com forte relação comercial com os EUA também estão na mira do tarifaço. Rio de Janeiro exportou US$ 7,2 bilhões (R$ 38,4 bilhões), seguido por Minas Gerais (US$ 4,6 bilhões, ou R$ 24,6 bilhões), Espírito Santo (US$ 3,1 bilhões, R$ 16,5 bilhões), Rio Grande do Sul (US$ 1,8 bilhão, R$ 9,6 bilhões) e Santa Catarina (US$ 1,7 bilhão, R$ 9,1 bilhões).
A pauta exportadora paulista é dominada por aeronaves fabricadas pela Embraer, equipamentos de engenharia civil e sucos de frutas, produtos com alto valor agregado e participação decisiva na balança comercial. “São Paulo é o maior exportador industrial para os Estados Unidos. O impacto de uma tarifa dessa magnitude seria devastador”, afirmou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em coletiva realizada em 10 de julho.
O risco é real e imediato. O Porto de Santos, responsável por 31,8% do valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos, é a principal porta de saída para os embarques de São Paulo. Os dados de 2024 revelam ainda que todos os cinco principais pontos de escoamento dessas exportações estão localizados na região Sudeste, onde também está concentrada a maior parte do PIB industrial do Brasil.
Segundo Larissa Wachholz, sócia da Vallya Participações e pesquisadora sênior do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), a concentração geográfica e produtiva amplia a vulnerabilidade da economia brasileira em relação às decisões unilaterais da Casa Branca. “Produtos como aviões, autopeças, motores, frutas e calçados, que formam uma pauta diversificada e valiosa, enfrentam riscos caso a taxação se concretize”, explicou.
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No Rio de Janeiro, os principais produtos exportados para os EUA são óleos brutos de petróleo, itens semiacabados de ferro e aço e óleos combustíveis. Já Minas Gerais se destaca nas vendas de café cru, ferro-gusa e tubos metálicos. Espírito Santo, por sua vez, embarca produtos semiacabados de ferro e aço, materiais de construção e celulose. Todos esses itens seriam diretamente afetados pela tarifa de 50%, que praticamente inviabilizaria a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, foi direto: “Nenhum produto suporta uma sobretaxa desse tamanho. O comércio entre os países seria inviabilizado. A indústria mineira, que já enfrenta dificuldades no setor siderúrgico devido à concorrência da China, pode ser duramente atingida”.
A pesquisa da Amcham Brasil mostra que a região Sudeste respondeu por 70% das exportações brasileiras para os EUA em 2024. No primeiro semestre de 2025, essa participação foi de 68%, com um total de US$ 20 bilhões (R$ 106,8 bilhões) exportados alta de 4,4% em comparação ao mesmo período de 2024. A ameaça da tarifa, portanto, chega justamente no momento em que a relação comercial estava em crescimento.
Como as tarifas de Trump tem repercutido?
A repercussão política e institucional também tem sido forte. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por meio de seu presidente Josué Gomes da Silva, defendeu uma resposta diplomática baseada em dados e equilíbrio. “Negociar com serenidade, a partir de fatos e estatísticas verdadeiras, é de interesse comum às empresas brasileiras e americanas”, disse em nota. Ele alertou ainda para o risco de distorção de fatos e do uso político das tarifas, em prejuízo do comércio internacional e das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Do ponto de vista da balança comercial, os Estados Unidos ainda detêm superávit em relação ao Brasil, tanto no comércio de bens quanto na balança de serviços. Isso reforça a ideia de que uma retaliação imediata poderia ser mais danosa ao Brasil do que ao parceiro comercial.
Com eleições presidenciais norte-americanas se aproximando e o tom de Trump cada vez mais nacionalista, a diplomacia brasileira terá papel fundamental nos próximos meses. As entidades empresariais alertam que o momento deve servir como lição para que a indústria brasileira diversifique mercados e não dependa tanto de um único destino. “Colocar todos os ovos na mesma cesta é sempre arriscado. A busca por novos acordos comerciais precisa ser prioridade da política externa e da iniciativa privada”, concluiu Larissa Wachholz.
A escalada tarifária proposta por Trump ainda depende de confirmação oficial, mas o simples anúncio já acendeu o alerta vermelho na indústria nacional. Se concretizada, a medida pode interromper um ciclo positivo de exportações, afetar diretamente milhares de empregos e reduzir a arrecadação fiscal em diversos estados.
Para os setores exportadores, especialmente em São Paulo, a lição é clara: depender de um só mercado é estratégico apenas até o momento em que esse mercado fecha as portas.
*Entrevistas concedidas ao InfoMoney.


