O Brasil, maior produtor e exportador de café do planeta, acompanha de perto os efeitos da decisão dos Estados Unidos de incluir o produto entre os itens que passaram a ser taxados em 50% desde 6 de agosto.

Dependência dos EUA abre espaço para negociação
O otimismo se baseia em números claros: cerca de um terço de todo o café que entra nos Estados Unidos vem do Brasil, em especial a variedade arábica, preferida pelas grandes marcas. Do lado brasileiro, o mercado americano respondeu, no ano passado, por 16,1% das exportações totais, o que equivale a 8,1 milhões de sacas de 60 quilos, cerca de 486 mil toneladas, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). A dimensão desse comércio mostra a dificuldade que os importadores americanos terão para substituir rapidamente a origem brasileira.
Brasil aposta em novos compradores
Enquanto aguarda uma possível revisão da tarifa, o governo brasileiro tenta acelerar negociações com outros destinos. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) já trabalha em um programa de diversificação para diminuir a dependência de um único comprador.
Países europeus como Alemanha e Itália, além de Japão e China, aparecem como alternativas promissoras para absorver parte da produção. A própria China, rival direta dos Estados Unidos, anunciou no início de agosto que abrirá seu mercado para cerca de 200 empresas exportadoras do “queridíssimo café brasileiro”, sinal de que há espaço para ampliar os negócios fora do eixo tradicional.
A mudança de rota, porém, não elimina a apreensão entre os produtores, já que as relações com relações comerciais com clientes americanos, que foram construídas ao longo de anos, podem acabar sendo facilmente substituídas, justamente por causa do preço final encarecido com o novo imposto. Desde a entrada em vigor da tarifa, não houve novos contratos com empresas dos Estados Unidos, e alguns embarques de vendas já acertadas foram adiados a pedido dos importadores.
Segundo o Cecafé, a situação é inédita e causa insegurança, pois compradores preferem esperar uma solução política antes de assumir compromissos de longo prazo. Do outro lado, companhias americanas que tradicionalmente importavam café brasileiro consideram o produto inviável com os preços atuais, classificando-o como inacessível para os consumidores locais.
Apesar da tensão, analistas destacam que o Brasil possui um trunfo importante: a oferta mundial de café está limitada, o que amplia o poder de negociação dos produtores nacionais. A seca histórica registrada em safras anteriores reduziu os estoques globais e fez os preços subirem já no início deste ano, sendo assim, mesmo com a barreira americana, o café brasileiro continua muito disputado no mercado internacional. Além disso, o fato de o grão poder ser armazenado por meses confere flexibilidade aos produtores, que conseguem aguardar melhores condições de venda.
Efeito no bolso do consumidor
Ainda não está claro se os consumidores brasileiros sentirão impacto direto no preço do café. A expectativa é que os primeiros a pagar a conta sejam os americanos, já que lá a tarifa tem efeito imediato no preço final. No entanto, se a procura internacional seguir alta e a quantidade de produto não crescer na mesma velocidade, os custos também poderão subir dentro do Brasil, mesmo que de forma mais lenta.
Diante desse cenário, o governo mantém abertas as portas para diálogo com Washington, mas, como as negociações seguem paradas, aposta paralelamente em novos parceiros comerciais. A chance de isenção continua viva, mas o país não pode depender apenas dessa possibilidade e precisa estar preparado para conquistar mercados diferentes.


