O governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos importados de diversos países, incluindo o Brasil. A medida, uma das mais agressivas da atual gestão, passa a valer nesta quarta-feira, 6 de agosto, e deve atingir aproximadamente 36% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano, após exceções concedidas em setores como aviação, energia e suco de laranja.
Apesar do impacto pontual em algumas regiões e cadeias produtivas, especialistas avaliam que a economia brasileira tem condições de absorver os efeitos da nova tarifa. Segundo dados do governo federal e estimativas da XP Investimentos, os setores mais afetados são os de commodities como carne bovina, café, frutas frescas e calçados, especialmente exportados pelo Nordeste.
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Exceções reduzem impacto no PIB
Inicialmente, o mercado projetava um impacto significativo sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2025. No entanto, com as isenções previstas, economistas ajustaram suas projeções. Luiza Pinese, da XP, afirmou que a previsão de impacto foi reduzida de 0,3 para 0,15 ponto percentual.
O Goldman Sachs (banco de investimento e empresa de serviços financeiros multinacional americano) manteve sua estimativa de crescimento do PIB brasileiro em 2,3% para o ano, destacando que o governo deve anunciar pacotes de apoio a setores mais vulneráveis. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, ressaltou que o Brasil tem diversificado sua pauta comercial, com quase metade das exportações do agronegócio destinadas à Ásia e apenas 10% para os Estados Unidos.
Participação dos EUA no comércio brasileiro é limitada
Os Estados Unidos representam hoje cerca de 12% do total das exportações brasileiras. Em contraste, a China absorve 28% das vendas externas do país, o que reduz a dependência brasileira em relação ao mercado norte-americano.
De acordo com dados do Banco Mundial, exportações e importações somaram 36% do PIB brasileiro em 2024, menos da metade da participação registrada no México ou Paraguai e bem abaixo de países asiáticos como Tailândia e Malásia. Isso confere uma proteção relativa contra choques externos, segundo o pesquisador da FGV Flavio Ataliba.
Regiões e setores mais expostos
A tarifa deve gerar efeitos desiguais sobre o território nacional. No Nordeste, por exemplo, a produção de frutas frescas, peixes, têxteis e calçados será fortemente impactada. Esses segmentos são intensivos em mão de obra e com menor valor agregado, o que dificulta a absorção de perdas no curto prazo.
O Banco Central do Brasil divulgou nota alertando que os efeitos podem ser “significativos” em alguns setores, embora o impacto macroeconômico dependa do desenrolar das negociações bilaterais e da resposta do mercado.
Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, destaca que, mesmo com a isenção de 700 produtos, o Brasil exporta mais de 4 mil itens para os Estados Unidos. “Boa parte das empresas exportadoras não foi beneficiada pelas exceções”, afirma.
Governo prepara medidas de apoio
O Palácio do Planalto estuda medidas para mitigar os impactos sobre empresas e trabalhadores dos setores afetados. Entre as possibilidades estão linhas de crédito subsidiadas, redução de impostos e incentivo à abertura de novos mercados.
Thiago Carlos, gestor da PIMCO, avalia que parte das commodities afetadas poderão ser redirecionadas a outros mercados com desconto. Isso aumentaria a oferta doméstica e poderia ajudar a conter a inflação de alimentos no Brasil. O Banco Central sinalizou que, se essa tendência se confirmar, poderá antecipar a flexibilização da política monetária.
Relacionamento político pode travar negociações
As tensões entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, intensificadas após declarações públicas sobre o julgamento de Jair Bolsonaro no STF, podem dificultar o avanço de acordos comerciais. Trump classificou o processo como uma “ameaça à soberania” brasileira, enquanto Lula rejeitou a interferência e chamou as ameaças tarifárias de “chantagem”.
Embora o governo brasileiro tenha declarado abertura ao diálogo, interlocutores em Brasília apontam que um entendimento pode demorar, sobretudo em um cenário político polarizado.
*Entrevistas concedidas ao InfoMoney


