A reforma tributária em andamento no Brasil deve modificar a forma como empresas de todos os portes lidam com impostos e fluxo de caixa. Um dos pontos de destaque é a adoção do Split Payment, modelo no qual parte do valor pago em uma transação segue diretamente para o governo como recolhimento de impostos, enquanto o restante é direcionado à empresa.
A medida, em análise no Congresso Nacional, busca aumentar a eficiência e a transparência da arrecadação. No entanto, especialistas apontam que o novo formato pode trazer desafios adicionais para os pequenos negócios, que já enfrentam dificuldades em manter capital de giro em um cenário de custos elevados.
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Impacto no caixa das pequenas empresas
Segundo Erick Nuñez, sócio da Tag Contabilidade e Equity Fund, o Split Payment representa uma mudança importante na forma de administrar o caixa. “O split payment reduz a flexibilidade financeira, já que o imposto deixa de passar pelo caixa da empresa. Isso significa menos fôlego no capital de giro, o que pode impactar especialmente os pequenos negócios”, afirmou.
De acordo com levantamento do Sebrae, 46% das micro e pequenas empresas brasileiras encerraram 2024 com dificuldades em manter o fluxo de caixa equilibrado. Nesse contexto, a retenção imediata de tributos em cada transação pode aumentar a pressão financeira no curto prazo.
Transição para o IVA dual
Além do Split Payment, a reforma prevê a criação de um Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) dual, que será composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios.
Esse novo sistema substituirá tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS. A transição, prevista para ocorrer entre 2026 e 2033, demandará adaptações nos sistemas de gestão, mudanças na apuração de tributos e ajustes nas estratégias de precificação.
“Será necessário um planejamento cuidadoso para evitar custos adicionais. Empresas precisarão atualizar seus processos contábeis e operacionais para se manterem competitivas”, destacou Nuñez.
Experiências internacionais com Split Payment
O modelo de Split Payment já é adotado em países como Itália e Polônia. Na Itália, o mecanismo foi introduzido em 2015 com o objetivo de reduzir a evasão fiscal. Desde então, empresas italianas relatam maior previsibilidade tributária, mas também queda na flexibilidade financeira, de acordo com relatório publicado pelo European Commission Taxation Papers.
Na Polônia, o modelo passou a ser obrigatório em 2019 para setores considerados de maior risco de fraude fiscal. O Ministério das Finanças da Polônia informou que a medida reduziu a inadimplência tributária, mas pequenos empresários apontaram aumento dos custos operacionais para se adaptar ao novo sistema.
Esses exemplos reforçam que o modelo pode trazer benefícios para a arrecadação governamental, ao mesmo tempo, em que exige ajustes relevantes por parte das empresas.
Oportunidades e riscos para empresários
Na visão de Claudio Santos, investidor e sócio do Next Group, o Split Payment apresenta vantagens em termos de segurança, mas também traz riscos. “Para o governo, o modelo aumenta a eficiência na arrecadação. Para os empresários, representa uma mudança cultural e operacional relevante: garante mais previsibilidade, mas exige maior planejamento de capital de giro”, afirmou.
Santos destacou ainda que, no Brasil, a adoção do modelo deve ampliar a transparência tributária, mas precisa ser acompanhada de atenção a possíveis riscos de bitributação e aumento da complexidade operacional para pequenos negócios.
Preparação antecipada é essencial
Especialistas indicam que a antecipação será um fator determinante para reduzir os impactos negativos das mudanças. Isso inclui investir em tecnologia para automação de processos, revisar contratos e políticas de precificação e reforçar a educação financeira dentro das empresas.
De acordo com estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicado em agosto de 2025, 63% das empresas industriais consideram que a reforma tributária trará aumento nos custos de adaptação a curto prazo, mas 72% acreditam que os efeitos de médio e longo prazo devem ser positivos em termos de simplificação.
Para as pequenas empresas, o desafio será equilibrar a segurança do novo sistema com a manutenção da saúde financeira. O cenário exigirá maior organização e acompanhamento contínuo das mudanças regulatórias para que não haja perda de competitividade.


