Pedir um empréstimo ou contratar um financiamento ficou mais fácil com os serviços oferecidos pela internet. Em poucos minutos, é possível receber uma proposta e concluir uma operação pelo celular, com crédito fácil e rápido.
Mas a rapidez também exige cuidado: quando a contratação acontece sem uma avaliação dos custos e da capacidade de pagamento, o que parecia uma solução pode se transformar em uma dívida difícil de quitar.
O risco não atinge apenas o bolso de quem contrata. Empresas que oferecem crédito ou permitem esse tipo de operação dentro de seus aplicativos e sites também podem sofrer consequências quando os clientes assumem compromissos que não conseguem pagar.

O alerta é importante em um país onde 81,6% das famílias tinham algum tipo de dívida a vencer em outubro, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) na quinta-feira, 5 de novembro. O resultado ficou apenas 0,1 ponto percentual abaixo do registrado em setembro e acima dos 79,5% de outubro de 2025.
Ter dívida não significa estar com contas atrasadas
Os números da CNC mostram que o endividamento continua elevado, mas também apontam uma pequena melhora em alguns indicadores. Em outubro, 16,8% das famílias se consideravam muito endividadas, ante 17,3% no mês anterior. Foi o menor resultado desde abril, quando o índice ficou em 16,4%.
A parcela de famílias com contas em atraso também diminuiu pelo segundo mês seguido. O percentual passou de 29,6% em setembro para 29,3% em outubro, o menor patamar de 2026.
É importante diferenciar as duas situações. Uma família endividada tem compromissos financeiros a vencer, como parcelas de empréstimos, financiamentos e compras no cartão de crédito. Isso não significa necessariamente que esteja com dificuldades para pagar. A inadimplência, por outro lado, acontece quando a pessoa não consegue quitar uma conta ou parcela dentro do prazo.
A CNC espera que o endividamento continue recuando nos últimos meses do ano, com a ajuda do pagamento da segunda parcela do 13º salário. A situação dos juros, no entanto, pode dificultar a recuperação financeira em 2027. Com a taxa básica ainda elevada, a queda dos juros tende a acontecer mais devagar, o que pode limitar o crescimento da economia e dificultar a vida de quem tem renda menor.
Quando contratar crédito fácil vira um problema
Aplicativos e sites permitem que o consumidor encontre ofertas e contrate serviços financeiros sem precisar ir a uma agência ou conversar pessoalmente com um atendente. A praticidade pode ajudar quem precisa de dinheiro, mas também exige atenção ao modo como as ofertas são apresentadas.
Descontos, recompensas, avisos de promoção e mensagens que incentivam a contratação imediata podem fazer uma proposta parecer mais vantajosa do que realmente é. Se a pessoa não parar para conferir os juros, o valor das parcelas e o custo total, corre o risco de assumir uma dívida que não cabe no orçamento.
Uma revisão de estudos publicada em 2026 no periódico Journal of Behavioral and Experimental Finance analisou 43 pesquisas sobre o comportamento dos usuários em serviços financeiros digitais. O trabalho identificou riscos ligados a estratégias que influenciam as escolhas dos consumidores, como o aumento de operações feitas em excesso e a dificuldade de perceber os riscos envolvidos.
“O problema surge quando esses recursos deixam de facilitar o acesso e passam a estimular decisões impulsivas, sem que o usuário avalie adequadamente os custos e as consequências de suas escolhas”, afirma Gabriel Orsi, diretor de produtos da Barkus, empresa de educação financeira.
Para o especialista, a solução não é tornar os serviços mais complicados, mas pensar em como a plataforma apresenta cada oferta. “O ponto não é abandonar a tecnologia ou tornar os serviços mais burocráticos. É reconhecer que a experiência digital também influencia o comportamento financeiro”, diz.
O que as empresas podem fazer para evitar esse risco
Oferecer crédito pode atrair clientes e aumentar as vendas, mas as empresas também precisam garantir que as condições sejam apresentadas com clareza. Informações sobre juros, taxas, prazo e valor total ajudam o consumidor a entender o compromisso que está assumindo.
Evitar mensagens que pressionem por uma decisão rápida e explicar os riscos da contratação também são medidas importantes. Assim, a facilidade de acesso ao crédito não se transforma em incentivo ao endividamento, e a empresa fortalece a confiança dos clientes.


