Os números mostram que o agronegócio brasileiro atravessa um momento de contrastes: ao mesmo tempo em que sofre com o aumento das tarifas de importação dos Estados Unidos, continua registrando volumes recordes nas exportações.
De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil exportou 347 mil toneladas de carne bovina em setembro, o maior volume da história. No acumulado do ano, as vendas externas somam 2,4 milhões de toneladas, com receita recorde de US$ 12,3 bilhões.

Carne bovina: exportações caem para os EUA, mas batem recorde no total
O impacto do chamado “tarifaço” foi imediato nas vendas para o mercado americano. As exportações de carne bovina para os Estados Unidos caíram 47% em relação a julho, recuando para uma média mensal de 9,6 mil toneladas em agosto e setembro.
Apesar disso, o desempenho global do setor foi o oposto do esperado: em vez de desacelerar, as exportações brasileiras de carne aumentaram. Esse crescimento mostra que o país redirecionou parte de sua produção para outros destinos, como China, Oriente Médio e União Europeia.
O resultado é expressivo. Somando bovina, suína e de frango, o Brasil exportou 7,26 milhões de toneladas de carne entre janeiro e setembro, com receitas de US$ 22 bilhões, valor 20% superior ao mesmo período de 2024.
Café: recuo controlado e novo destino para o produto
O café, tradicional item da pauta de exportações brasileiras, também foi alvo das novas tarifas americanas. Os Estados Unidos, que aplicaram uma tarifa acumulada de 50%, reduziram suas compras de 20,26 mil toneladas em julho para 17,7 mil toneladas em setembro, uma queda de 12%.
Embora o volume tenha diminuído, o resultado ficou longe das previsões mais pessimistas. O mercado esperava uma retração muito maior.
Enquanto isso, a Colômbia — segunda maior produtora mundial de café arábica (espécie de grão originário da Etiópia, conhecido por sua qualidade superior, sabor suave, adocicado e aromático, e acidez equilibrada) — se tornou um comprador inesperado. Em setembro, o país importou 7.057 toneladas de café brasileiro, um salto de 129% em relação a agosto e 461% acima de setembro de 2024.
Esses números mostram uma mudança no fluxo comercial. O que o Brasil deixou de vender aos americanos está sendo parcialmente compensado por novos destinos — inclusive países que, como a Colômbia, também são grandes produtores.
Frango e suíno mantêm receitas e sustentam o setor
As carnes de frango e suína ajudaram a sustentar o bom desempenho geral das exportações brasileiras. A carne de frango, mesmo sem as compras da China — que ainda não retomou o comércio após o registro de casos de gripe aviária no Brasil —, registrou US$ 7 bilhões em receitas de janeiro a setembro, praticamente igualando o desempenho de 2024.
Já a carne suína atingiu 1,11 milhão de toneladas exportadas no mesmo período, gerando US$ 2,7 bilhões. O crescimento conjunto das três principais proteínas confirma a força do setor, que responde por uma parcela relevante da balança comercial brasileira.
Produtos mais afetados pelas tarifas
Outros produtos, porém, não conseguiram se adaptar com a mesma rapidez. O sebo bovino, subproduto usado na indústria de cosméticos e biodiesel, teve uma das quedas mais acentuadas: passou de 56 mil toneladas em julho para 26 mil em setembro, redução de mais de 50%.
O mel brasileiro também foi afetado. As exportações para os Estados Unidos recuaram 24%, ficando em 2.338 toneladas em setembro, justamente no período de formação de novos contratos da safra.
O setor de madeira registrou uma retração ainda mais expressiva: as exportações caíram de 152 mil toneladas em julho para 52 mil em setembro, um tombo de quase 66%.
Nos produtos energéticos, o cenário foi ainda mais drástico. As vendas de etanol para os americanos despencaram de 23 mil toneladas em julho para apenas 967 toneladas em setembro, queda superior a 95%. No caso do tabaco, as exportações recuaram de 5,8 milhões para 1,26 milhão de toneladas, redução de quase 80% no mesmo período.
Manga escapa do impacto e mantém ritmo
Entre os produtos agrícolas, a manga foi uma exceção. Mesmo em um momento de tarifas elevadas, as compras americanas se mantiveram estáveis. Em setembro, os Estados Unidos importaram 13,9 mil toneladas de manga brasileira, praticamente o mesmo volume registrado em setembro do ano anterior. O número contrasta com agosto, quando as exportações haviam sido bem menores, somando 2.928 toneladas.


