Os Estados Unidos abriram uma nova frente de tensão comercial ao propor tarifas adicionais sobre importações de 60 economias, incluindo o Brasil, sob a alegação de que esses países não adotam medidas eficazes para impedir a entrada de produtos produzidos com trabalho forçado em suas cadeias produtivas.
A proposta foi apresentada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e prevê sobretaxas entre 10% e 12,5% sobre mercadorias exportadas para o mercado norte-americano.
A iniciativa faz parte de uma série de investigações conduzidas com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, instrumento utilizado para apurar práticas consideradas injustas ou prejudiciais ao comércio americano. Segundo o governo, a presença de produtos associados ao trabalho forçado gera concorrência desleal contra trabalhadores e empresas dos EUA.

Brasil está no grupo sujeito à tarifa mais alta
Pela proposta preliminar, o Brasil integra o grupo de países que poderão sofrer uma tarifa adicional de 12,5%, ao lado de economias relevantes como:
- China
- Índia
- Japão
- Coreia do Sul
- Suíça
- Austrália
Já países que possuem mecanismos considerados parcialmente compatíveis pelos norte-americanos, como a União Europeia, Canadá, México e Reino Unido, enfrentariam uma sobretaxa menor, de 10%.
Países contestam acusações
A proposta gerou forte reação entre governos e blocos econômicos atingidos.
A União Europeia classificou as conclusões americanas como injustificadas e argumentou que já possui legislação própria para proibir produtos associados ao trabalho forçado desde 2024. Autoridades europeias chegaram a considerar a acusação “absurda” diante das medidas já adotadas pelo bloco.
O Reino Unido afirmou que continua comprometido com políticas de combate ao trabalho forçado e demonstrou expectativa de resolver a questão por meio de negociações diplomáticas.
A Índia também destacou avanços regulatórios internos e busca evitar uma escalada das tensões comerciais com os Estados Unidos.
Já a China rejeitou as acusações e defendeu que o tema seja tratado por meio do diálogo entre os governos.
Como a medida pode afetar o Brasil
Embora a proposta ainda esteja em fase de consulta pública, especialistas avaliam que uma eventual implementação poderá gerar impactos relevantes sobre as exportações brasileiras.
Os norte-americanos figuram entre os principais parceiros comerciais do Brasil, absorvendo bilhões de dólares em produtos industriais e agropecuários todos os anos. Uma tarifa adicional de 12,5% aumentaria o custo dos produtos brasileiros para compradores americanos, reduzindo a competitividade frente a concorrentes de outros mercados.
Entre os setores potencialmente mais expostos estão:
- Agronegócio;
- Produtos alimentícios;
- Indústria de transformação;
- Mineração;
- Bens manufaturados destinados ao mercado norte-americano.
O relatório americano cita inclusive produtos agrícolas brasileiros como exemplos de cadeias produtivas sob observação, o que amplia a preocupação do setor exportador nacional.
Pressão dupla: proposta se soma a outra tarifa de 25%
Recentemente, o USTR encerrou uma outra investigação, também baseada na Seção 301, mas focada em temas diferentes: comércio digital, propriedade intelectual e o acesso do etanol brasileiro ao mercado americano.
Essa investigação paralela resultou em uma proposta de tarifa separada de 25% sobre uma ampla gama de produtos do Brasil. Analistas de mercado apontam que o governo americano está tentando reconstruir o seu arsenal de barreiras comerciais após sofrer algumas derrotas em decisões judiciais anteriores que limitavam o poder do presidente de aplicar impostos de importação por conta própria.
Próximos passos e o que esperar
Apesar do sinal de alerta, a medida ainda não entrou em vigor. O governo dos Estados Unidos abriu um período de consulta pública que vai até o mês de julho.
Esse é o momento em que as empresas afetadas, as associações de comércio e os governos estrangeiros podem apresentar suas defesas e tentar reverter a decisão. Uma audiência pública também será realizada antes do martelo ser batido pela Casa Branca.
Se forem implementadas de fato, essas tarifas devem trazer bastante instabilidade para as ações das empresas exportadoras na bolsa de valores e colocar uma pressão forte sobre a balança comercial brasileira, que é o saldo entre tudo o que o país vende e compra do exterior.


