O Brasil ainda ignora suas próprias riquezas
No entanto, ao olharmos para o cenário brasileiro, percebemos um contraste: mesmo com toda sua diversidade cultural e ancestral, o Brasil segue preso a modelos de felicidade importados de universidades como Harvard, Columbia e Oxford — centros dominados por visões eurocêntricas, masculinas e elitizadas. Essa dependência epistemológica limita nossa capacidade de compreender o que significa viver bem em um país plural — em família, na escola, no trabalho, nos templos, nos hospitais ou nas ruas.
E o problema não para por aí. Expressões como o samba, o pagode e o funk ainda são marginalizadas, tratadas como entretenimento de “baixa qualidade” — quando, na verdade, são manifestações legítimas de resistência, identidade e afeto.
Do mesmo modo, religiões afro-brasileiras como a Umbanda, o Candomblé, a Jurema e o Tambor de Mina continuam sendo estigmatizadas, enquanto tradições europeias e asiáticas — como o kardecismo ou o budismo —, sem contar diversas expressões do cristianismo, recebem prestígio e reconhecimento.
Esse elitismo cultural não molda apenas nossos gostos artísticos ou espirituais. Ele determina, na prática, quais formas de vida são consideradas dignas de serem chamadas de felizes. Ao adotar uma “monocultura da mente” sobre a felicidade, apagamos os múltiplos jeitos de viver bem que nascem dos nossos territórios, das nossas histórias e das nossas identidades.


