Mesmo com o domínio das plataformas de streaming, o mercado de discos de vinil tem crescido de forma consistente nos últimos anos. Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as vendas globais de vinil aumentaram 17,1% em 2023. No Brasil, dados da Pro-Música Brasil apontam que, somente em 2023, foram vendidos mais de 1 milhão de discos, um crescimento de 13% em relação ao ano anterior.
Esse movimento é reflexo de uma tendência conhecida como “economia da nostalgia”, que resgata produtos e experiências do passado como forma de consumo afetivo. O vinil, que havia sido praticamente abandonado nos anos 1990, agora retorna como símbolo de exclusividade e autenticidade sonora.
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Quem está comprando vinil no Brasil?
Estudo conduzido pelo Instituto QualiBest, com consumidores de produtos retrô no país, revelou que 58% dos compradores de vinil têm entre 25 e 44 anos. Diferentemente do que se imagina, o público não é composto apenas por pessoas que cresceram ouvindo LPs, mas também por jovens que descobriram o formato nos últimos anos.
Ainda de acordo com a pesquisa, 72% dos entrevistados disseram que compram vinil por valorizar a experiência tátil e visual da mídia, que inclui capas elaboradas e encartes. Já 49% destacaram a qualidade do som analógico como principal atrativo.
As compras acontecem tanto em lojas especializadas quanto online. Plataformas como Mercado Livre e Shopee registraram aumento na procura por LPs usados e reedições novas. No Mercado Livre, o vinil mais vendido em 2024 foi o álbum Tribalistas, vendido em média por R$ 190.
Quanto custa produzir e vender um disco de vinil?
A produção de discos de vinil no Brasil envolve etapas especializadas e altos custos. Segundo dados da fábrica Vinil Brasil, uma das poucas em operação no país, o custo médio para prensar um lote de 300 unidades gira em torno de R$ 15 mil, o equivalente a R$ 50 por unidade. Isso inclui masterização, matriz, prensagem e embalagem. Quando somados os custos de licenciamento, distribuição e marketing, o preço final ao consumidor pode chegar a R$ 150 ou mais por unidade.
Reedições de álbuns antigos ou lançamentos de artistas independentes geralmente variam entre R$ 100 e R$ 250 nas lojas físicas e e-commerces. Álbuns importados, por sua vez, podem ultrapassar R$ 300 devido a taxas de importação e variação cambial.
Apesar do custo elevado, muitos consumidores não enxergam o valor como impeditivo. O vinil é visto como item de coleção, por isso o preço é relativizado.
A cadeia produtiva do vinil no país
O renascimento do vinil movimenta uma cadeia que vai da prensagem ao varejo, incluindo pequenas gravadoras, artistas independentes e lojas especializadas. Atualmente, o Brasil conta com quatro fábricas em operação: Vinil Brasil (SP), Polysom (RJ), Rocinante (RS) e Noize (RJ), que atendem a demanda nacional e, em alguns casos, exportam.
As tiragens de discos variam bastante. Selos independentes normalmente produzem de 300 a 500 cópias por álbum, enquanto grandes gravadoras fazem tiragens acima de mil unidades. A reedição do álbum Acabou Chorare, dos Novos Baianos, por exemplo, teve 2.500 cópias produzidas em 2023 pela Polysom.
Segundo a ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), o número de artistas que incluíram vinil em seus lançamentos cresceu 22% entre 2022 e 2024. Isso se deve, em parte, ao valor simbólico do vinil como objeto físico em um mercado dominado por música digital.
Sustentabilidade e longevidade do nicho
Ainda que represente uma pequena fatia do mercado fonográfico total, o vinil tem crescido de maneira estável. De acordo com a Pro-Música Brasil, o formato representa cerca de 3% do faturamento do setor, mas com tendência de aumento. Em 2019, essa participação era de apenas 0,9%.
Especialistas apontam que o nicho é sustentável desde que a produção seja controlada e direcionada a um público segmentado. Para pequenas gravadoras, a venda direta ao consumidor por meio de feiras, shows e e-commerce tem sido a principal estratégia de viabilidade financeira.
No campo ambiental, no entanto, o vinil apresenta desafios. Feito de PVC, um material plástico de difícil reciclagem, a produção dos discos não é considerada ecológica. Algumas fábricas brasileiras já estudam alternativas como o uso de PVC reciclado e embalagens sustentáveis, embora ainda em fase inicial.
Lojas físicas e eventos ajudam a manter o formato vivo
Feiras de vinil e lojas especializadas continuam sendo pontos de encontro entre colecionadores e novos adeptos do formato. Em São Paulo, eventos como a Feira do Vinil da Galeria do Rock e a Feira de Discos do MIS reúnem milhares de visitantes a cada edição. Em 2024, a Feira do Vinil do MIS registrou mais de 8 mil visitantes em um único fim de semana, segundo os organizadores.
Lojas tradicionais como Locomotiva Discos (SP), Baratos da Ribeiro (RJ) e Sebo Clepsidra (BH) reportam aumento na procura e mantêm estoques diversificados de álbuns novos e usados. A movimentação constante desses estabelecimentos contribui para o fortalecimento da cadeia e manutenção da cultura do vinil no Brasil.
Mercado de nicho segue em expansão controlada
Com crescimento constante, ainda que modesto, e forte apelo entre consumidores que valorizam o físico e o nostálgico, o vinil mantém sua posição como um nicho ativo no mercado fonográfico nacional. O formato segue impulsionado por fatores culturais, emocionais e comerciais em um cenário majoritariamente digital.


