Pergunte a qualquer torcedor o que vem à cabeça quando pensa em jogo de futebol, e a resposta, muitas vezes, virá acompanhada de uma garrafa gelada de refrigerante. Mas não é impressão: uma pesquisa da Toluna, feita com 1.050 brasileiros entre os dias 17 e 19 de junho, mostra que a Coca-Cola é a marca mais lembrada entre os patrocinadores ligados à Copa do Mundo, à frente de Nike, iFood, Adidas e McDonald’s.
O problema é que essa lembrança tem um preço alto para a saúde pública. E é justamente por isso que ganha força uma coalizão internacional disposta a repensar essa associação quase automática entre futebol e refrigerante.

O movimento “Tirem o Refrigerante de Campo” coloca essa relação no centro do debate. São quase 100 organizações das áreas de saúde, meio ambiente e direitos da infância pressionando a FIFA a rever os critérios de patrocínio esportivo. No Brasil, o Instituto Desiderata é um dos participantes dessa articulação.
A entidade carioca, atuante há mais de duas décadas em políticas de proteção à infância, soma-se ao movimento em um momento estratégico: o Mundial deste ano funciona como vitrine para marcas que, segundo os organizadores da campanha, praticam o chamado sportswashing (estratégia de associar marcas ou produtos à imagem positiva do esporte para melhorar sua reputação), ligando produtos de baixo valor nutricional a conceitos como saúde, alto rendimento e bem-estar por meio do patrocínio esportivo.
Para além do apelo da saúde pública, a mobilização tem um componente econômico que interessa diretamente ao noticiário de finanças. O Instituto Desiderata apoia a campanha “Mamata dos Refrigerantes”, da ACT Promoção da Saúde e da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, cujo objetivo é pressionar o Congresso Nacional a revogar um benefício fiscal superior a R$ 3,1 bilhões concedido à indústria de refrigerantes no país.
Segundo a diretora executiva do Desiderata, Renata Couto, a mobilização já mostrou resultados em outros países.
“Precisamos fazer com que o consumidor e as famílias entendam que o refrigerante não tem nenhuma relação com saúde e bem-estar, como a publicidade insiste em mostrar. Só que estamos enfrentando uma indústria rica e poderosa.”
O impacto para a saúde pública
Para Renata, não faz sentido a associação entre refrigerantes e esportes.
“Não podemos normalizar a associação do consumo de refrigerante aos esportes. Há uma incoerência óbvia.”
Ela lembra que evidências científicas relacionam o consumo de bebidas açucaradas a diversos prejuízos à saúde.
De acordo com os números do Panorama da Obesidade Infantil (dados oficiais do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional – SISVAN no período de 2015/2025), 30% das crianças e adolescentes atendidos pela Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) apresentam sobrepeso ou obesidade no Brasil. O consumo de alimentos ultraprocessados começa cedo: em 2020, 33% das crianças com menos de dois anos e 45% dos adolescentes já haviam consumido refrigerantes ou bebidas adoçadas no período analisado.
Um debate que vai além do futebol
Não é a primeira vez que o mercado esportivo é obrigado a rever a quem empresta sua imagem. Há poucos dias, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) mostrou que, quando a pressão regulatória e social se organiza, mudanças no modelo de exposição de determinados produtos na televisão e em outras telas — como ocorreu com as bets — deixam de ser hipótese e passam a integrar a agenda.
Se as apostas, pelo lado negativo, mostram que é possível repensar regras de patrocínio em nome da proteção do consumidor, não há razão para que o refrigerante continue fora dessa discussão. Se a Copa também é tempo de festa, que seja, cada vez mais, tempo de repensar hábitos em nome da saúde de quem torce.


