Duas semanas foi o tempo que o Rio de Janeiro levou, numa mesma janela de tempo e espaço, para sediar a Feira Preta, a Rio Nature and Climate Week, o Rio2C e o Web Summit. O que também significa quatro eventos e quatro universos distintos, mas que se cruzam.

Quatro multidões que chegaram de avião, de metrô, de BRT (Bus Rapid Transit, sistema de ônibus de trânsito rápido) e de aplicativo, depositando dinheiro na cidade de maneiras que nenhum economista consegue tabular por inteiro. Esse é o tipo de fenômeno que nós, da comunicação, adoramos chamar de “aquecimento da economia criativa” e que, numa palavra mais honesta, também poderia ser: ebulição.
O que acontece quando uma cidade concentra esse volume de eventos num mesmo intervalo de tempo não é apenas crescimento; é evolução com impacto econômico direto. Hotéis lotados na Barra para o Rio2C e o WS (Web Summit), em Ipanema e no Centro para a Rio Nature and Climate Week (RNCW) e a Feira Preta.
As cifras de impacto econômico produzidas, por vezes, esquecem daquele número que é o mais revelador: o dinheiro do ambulante, o cara que monta a barraca de água de coco na Praça Mauá, a mulher que vende acarajé nas tendas da Feira Preta, o motorista de Uber que trabalha horas seguidas e termina o mês quitando a parcela do carro que estava em atraso.
Esse é o dinheiro que circula de mão em mão, sem nota fiscal, sem CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), sem relatório de impacto. E é exatamente por isso que ele diz algo que os números oficiais escondem: quem realmente sustenta a festa de uma cidade criativa não é só quem está no palco principal.
O dinheiro que não aparece nos relatórios
A Feira Preta é, antes de qualquer coisa, um ato político. Criada em São Paulo por Adriana Barbosa há mais de duas décadas, ela é a maior feira de negócios da cultura negra da América Latina. Quando chega ao Rio, não traz apenas empreendedores, artistas e público; traz consigo uma afirmação: a produção cultural negra tem valor de mercado, tem escala, tem futuro. E exige espaço (alô, SP).
A Rio Nature and Climate Week coloca o Rio no mapa das cidades que estão tentando pautar o debate global sobre crise climática, trazendo especialistas internacionais, delegações governamentais e uma imprensa atenta que, na maior parte do tempo, só cobre o meio ambiente quando há tragédia climática.
O Rio2C é a aposta mais consolidada da cidade no mercado de entretenimento e criatividade, indo da música ao audiovisual, da inovação aos negócios, encontrando elo no Web Summit, sinal mais claro de que o Rio quer ser levado a sério como um hub tecnológico global (centro de inovação e tecnologia).
O problema que ninguém quer nomear é que a maior parte desse movimento acontece numa faixa geográfica muito estreita da cidade, num eixo Zona Sul–Zona Oeste, passando por alguns pontos do Porto Maravilha. O Rio tem 6,2 milhões de habitantes espalhados por 1.200 quilômetros quadrados. Tem o maior conjunto de favelas da América do Sul. Tem bairros na Zona Norte e na Zona Oeste que são cidades dentro da cidade, com densidade, com cultura e uma pulsão de criatividade que não está no gibi.
Quando o Web Summit lota o Riocentro e os hotéis da Barra, o que chega até Realengo? Até Bangu? Até Anchieta? O motorista de Uber que mora lá acorda às cinco da manhã para atravessar a cidade e pegar uma corrida no Galeão. Ele participa do ecossistema como mão de obra invisível, não como beneficiário. E isso deixou de ser exclusividade carioca. São Paulo faz o mesmo. Lisboa fez o mesmo antes de começar a corrigir.
Descentralizar não é inclusão: é estratégia econômica
Existe um argumento econômico — não apenas social — para descentralizar o polo criativo de uma cidade como o Rio. Primeiro: a capacidade instalada do Centro e da Zona Sul já está no limite. Hotéis lotam, o trânsito colapsa e o custo de receber eventos cresce na proporção da saturação. Expandir geograficamente não é generosidade, é gestão.
Daí que a cultura que o mundo quer consumir quando vem ao Rio muitas vezes não está no Riocentro; está no Cacique de Ramos ou no Renascença. O turista criativo que o Rio2C e o Web Summit atraem não quer só painéis, quer experiência. E experiência autêntica está distribuída pela cidade inteira.
Descentralizar o polo criativo exige uma decisão política que vai além de levar um evento para Bangu. Exige pensar em quem fica, em quem é empurrado para fora, em quem recebe os recursos e em quem tem voz no processo.
Duas semanas de Feira Preta, Rio Nature and Climate Week, Rio2C e Web Summit são, sim, motivo de celebração. O Rio prova ao país que tem capacidade de concentrar conversas globais sobre cultura, raça, clima e tecnologia num mesmo ciclo. Isso não é pouca coisa para uma cidade que passou décadas sendo pautada por má gestão.
Só que celebração sem crítica é release. A diferença está em ter estrutura física, política e cultural justamente para canalizar essa energia para além dos bairros que já sabem que existem.
O Rio tem um talento raro: ele consegue fazer o mundo olhar para ele. O que ele ainda precisa aprender é fazer a cidade inteira olhar para si mesma.