No mundo dos negócios, a velha fórmula “faturamento menos custos igual a lucro” já não é suficiente. Hoje, empresas que desejam ser sustentáveis e lucrativas precisam medir práticas ESG — sigla em inglês para ambiental, social e governança — com indicadores cada vez mais sofisticados e integrados aos balanços financeiros.

Esse movimento ganha força com lideranças que veem a sustentabilidade como essencial para a longevidade das organizações. Para Ana Buchaim, vice-presidente de pessoas, marketing, comunicação, sustentabilidade e investimento social da B3, adotar práticas sustentáveis é uma forma de antecipar riscos e oportunidades causados pelas mudanças climáticas. “É preciso ir além da lógica imediatista de lucros e perdas”, destaca.
Walléria Sampaio, gerente executiva de estratégia e governança da sustentabilidade do Banco do Brasil, concorda: “Incorporar ações de sustentabilidade exige rever profundamente os modelos tradicionais de crescimento e adotar métricas que vão além do lucro financeiro”.
A sustentabilidade entra no balanço
Nos relatórios atuais, a sustentabilidade aparece com indicadores como a intensidade de emissões de gases de efeito estufa e o número de hectares conservados ou reflorestados. A Natura, por exemplo, adota o Integrated Profit and Loss (IP&L), ferramenta que atribui valor aos impactos causados em três dimensões: capital natural, social e humano.
Segundo Tatiana Ponce, vice-presidente de marketing e líder de pesquisa e desenvolvimento da Natura e Avon, essa abordagem permite visualizar como decisões regenerativas geram retorno reputacional, maior engajamento dos consumidores e eficiência operacional. “Não dá mais para olhar só os indicadores financeiros e achar que isso reflete a performance da empresa”, afirma.
Medição como ponto de partida
Na Nestlé, mensurar é o primeiro passo. “Não se gerencia o que não se mede”, resume Taissara Martins, head de sustentabilidade da companhia no Brasil. Um exemplo prático foi identificar que 70% das emissões de gases de efeito estufa da empresa vêm do campo. Isso levou à promoção de práticas de agricultura regenerativa em cadeias produtivas importantes, como cacau e leite.
“Estamos saindo de uma lógica linear para uma abordagem regenerativa, que mede o sucesso pelo impacto positivo”, explica Taissara. A ideia é transformar o modelo de negócios para que crescimento e sustentabilidade caminhem juntos.
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Como criar indicadores ESG
De acordo com Ana Buchaim, da B3, o primeiro passo para definir indicadores ESG é identificar a materialidade do setor: ou seja, os temas ambientais e sociais que mais impactam o negócio. Esse processo deve envolver não apenas a liderança, mas também os stakeholders — pessoas e entidades interessadas ou afetadas pelas atividades da empresa.
Após identificar os pontos materiais, a companhia pode adotar padrões consolidados, como os da Global Reporting Initiative (GRI) e da International Financial Reporting Standards (IFRS). Também são referências importantes a norma ISO 14001 e as recomendações da Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (TCFD).
“Essa jornada não precisa ser solitária. Há várias alianças globais e grupos de trabalho que ajudam as empresas na adaptação climática”, afirma Ana.
Regenerar e lucrar ao mesmo tempo
Um exemplo inovador nesse contexto é o Business Model (RE)Generation Canvas, desenvolvido pela fundadora do think tank #ESGpraJÁ, Erlana Castro. A ferramenta é uma evolução do tradicional Business Model Canvas, incorporando o ESG como parte da criação de valor do negócio.
“A ideia por trás do (RE)Canvas é simples: é um bom negócio ser um negócio bom”, diz Erlana. Em 2023, ela reuniu 30 especialistas para repensar, bloco a bloco, a estrutura do modelo tradicional, resultando em uma versão conceitual apresentada no festival Cannes Lions de 2024.
O (RE)Canvas pode ser usado para criar novos produtos e serviços, revisar modelos de negócios existentes ou como base para sessões de aprendizado entre líderes. “Agora é sobre regenerar e lucrar ao mesmo tempo”, explica Erlana.
A nova equação do sucesso
Antes, havia organizações exclusivamente lucrativas e outras exclusivamente regenerativas, sem fins lucrativos. Hoje, as empresas precisam combinar as duas abordagens. “O (RE)Canvas oferece um guia para essa jornada estratégica e criativa”, comenta Erlana.
Para que esses indicadores dialoguem com as metas financeiras, é essencial vê-los como uma linguagem: uma maneira eficaz e confiável de contar a história de um negócio que busca gerar impacto positivo e retorno financeiro.
“Uma empresa convicta e engajada vai enxergar o ESG como o principal território de criação de valor presente e futuro. Não é sobre filantropia. Preste atenção na sigla: ESG é Sobre Grana”, conclui Erlana.
A importância para os negócios brasileiros
Esse movimento ganha ainda mais relevância considerando o contexto brasileiro. Segundo dados da cotação atual, US$ 1 equivale a aproximadamente R$ 5,20. Assim, investimentos feitos por grandes empresas internacionais — que destinam bilhões de dólares a ações sustentáveis — representam também bilhões de reais no mercado nacional. Esse fluxo contribui não apenas para o fortalecimento econômico, mas para a construção de cadeias produtivas mais sustentáveis e competitivas.
No fim, medir práticas ESG não é apenas uma exigência do mercado ou uma resposta às pressões regulatórias, mas uma nova forma de garantir a perenidade e a relevância das marcas no século XXI.
*Entrevistas concedidas ao Meio&Mensagem


