A primeira semana da COP30, realizada em Belém (PA), encerrou seus trabalhos com avanços considerados relevantes pelos negociadores. Diferente das últimas quatro conferências, que ficaram paralisadas por divergências sobre a definição da agenda, o encontro no Brasil conseguiu iniciar as negociações sem atrasos.
O presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago, propôs uma solução que evitasse novo bloqueio: iniciar imediatamente a discussão dos 145 itens que tinham consenso e, paralelamente, seguir negociando os quatro pontos que estavam em impasse. A estratégia manteve o ritmo da conferência e permitiu que diversos temas procedimentais fossem concluídos ao longo da semana.
Entre esses 145 temas, pelo menos 20 são considerados mais sensíveis, por envolverem divergências entre países em desenvolvimento e nações desenvolvidas. Mesmo assim, o avanço inicial foi visto como um passo importante para evitar atrasos na etapa ministerial da conferência.
Leia também: Quarto dia da COP30 tem cobrança da ONU, protestos e novos dados sobre carbono

Fala de Lula movimenta bastidores e abre debate sobre combustíveis fósseis
Embora fora da agenda formal, uma das declarações de maior repercussão veio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula defendeu a construção de um mapa de transição global para a redução da dependência de combustíveis fósseis.
Em um evento paralelo liderado pela ministra Marina Silva, representantes de países como Alemanha e Reino Unido sinalizaram que acompanharão o Brasil caso o governo apresente uma proposta estruturada para orientar a eliminação gradual dos combustíveis fósseis.
A discussão ocorre em meio a dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que apontam os combustíveis fósseis como responsáveis por cerca de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Financiamento climático domina negociações paralelas
O tema do financiamento para a transição energética também esteve entre os mais comentados da semana. O Acordo de Paris previa que os países desenvolvidos deveriam aportar US$ 100 bilhões por ano para ações de mitigação e adaptação climática nos países em desenvolvimento. Em valores convertidos hoje, o montante equivale a aproximadamente R$ 576 bilhões por ano, considerando dólar a R$ 5,76.
Esse compromisso, no entanto, nunca foi integralmente cumprido. Na COP29, realizada no Azerbaijão, iniciou-se a discussão sobre o volume real necessário, chegando à estimativa de US$ 1,3 trilhão anuais (cerca de R$ 7,48 trilhões) para atender às demandas globais. A conferência terminou com compromisso de apenas US$ 300 bilhões (aproximadamente R$ 1,72 trilhão) e a incumbência para que Azerbaijão e Brasil apresentassem um mapa para atingir os 1,3 trilhões.
O relatório “De Baku a Belém”, produzido pelos dois países, reuniu alternativas, mas o tema continua no bloco dos quatro itens cuja inclusão na agenda ainda não foi definida.
Quatro pontos seguem em impasse
Os quatro itens que seguem sem consenso e cuja decisão ficou para sábado são:
- O volume de capital estatal no financiamento climático
- O aumento da ambição das NDCs, que são as metas nacionais de redução de emissões
- A forma de monitorar o cumprimento dessas metas
- A discussão sobre medidas unilaterais ambientais que afetam o comércio, como regulações da União Europeia
Esses itens são vistos como os mais sensíveis da conferência e devem orientar o ritmo das negociações na segunda semana.
Camadas da COP30: visão da participação brasileira
Além da agenda formal, a COP30 se destacou pela diversidade de atores presentes em Belém. Para o administrador e especialista em crédito Élber Laranja, fundador da Titanium Plataforma de Crédito, a conferência pode ser compreendida em camadas.
A primeira seria a “biosfera” da COP, formada por empreendedores, startups e organizações com soluções ambientais aplicadas à economia real. Esse grupo busca transformar sustentabilidade em vantagem competitiva e apresentar projetos capazes de gerar impacto e receita.
Na “atmosfera”, Élber observa grandes organizações públicas e privadas que procuram novas ideias e tecnologias capazes de comprovar impacto socioambiental e ampliar visibilidade junto a investidores e à sociedade.
No topo, na “estratosfera”, estão os líderes globais e negociadores que discutem financiamento, metas e compromissos internacionais.
Fundo baseado em carbono se destaca como inovação brasileira
Entre os casos apresentados na primeira semana, o projeto conduzido por Élber na COP30 chamou atenção por propor um modelo que conecta preservação ambiental ao mercado de crédito.
O protótipo apresentado no Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas (LIFT), do Banco Central, propõe um fundo garantidor de crédito baseado em CPR Verde e lastreado em créditos de carbono provenientes de áreas de conservação arrendadas. O objetivo é permitir que práticas de preservação sirvam como garantia para operações de crédito, ampliando o acesso de agricultores familiares a financiamentos sustentáveis.
A proposta esteve entre as finalistas do LIFT Data e foi discutida em atividades na Green Zone da conferência. A ideia parte da lógica de que a floresta em pé pode gerar renda e crédito, aproximando ativos ambientais da economia real.
Negociações seguem até sábado
A agenda da primeira semana termina oficialmente neste sábado, 15 de novembro, quando deve ser decidido se os quatro pontos pendentes serão incorporados às negociações. Apenas no domingo a Blue Zone permanecerá fechada, antes da retomada das tratativas na segunda semana.


