Portugal vive mais uma reviravolta política. No último domingo, 18 de maio, o país europeu realizou eleições parlamentares antecipadas, e a coalizão de centro-direita Aliança Democrática (AD) saiu vitoriosa. No entanto, o partido não conseguiu a maioria no Parlamento, o que pode prolongar a instabilidade política e impactar diretamente o andamento de reformas econômicas importantes.

Vitória sem maioria pode travar decisões
Com 89 cadeiras das 230 disponíveis, a AD, liderada por Luís Montenegro, precisaria de 116 assentos para garantir maioria absoluta no Parlamento português. Na prática, isso significa que o novo governo vai precisar negociar com outros partidos para aprovar projetos e reformas — o que, em um cenário polarizado, pode se tornar uma missão difícil.
Montenegro já declarou que não fará alianças com o partido de ultradireita Chega, que, por sua vez, teve crescimento expressivo, conquistando 58 cadeiras e mais de 22,6% dos votos válidos. Para efeito de comparação, nas eleições anteriores o partido tinha apenas 12 cadeiras. A ascensão do Chega pode tornar o parlamento ainda mais dividido, dificultando a governabilidade.
O que está em jogo para a economia portuguesa
A incerteza política gerada por um governo minoritário preocupa o mercado, especialmente em relação a reformas estruturais e privatizações. Um dos projetos que pode ser afetado é a venda da TAP Air Portugal, companhia aérea estatal cuja privatização está atrasada há anos. A instabilidade pode adiar novamente esse processo, o que não agrada investidores.
Outro ponto crítico é o uso de fundos da União Europeia. Portugal deve receber cerca de 16,6 bilhões de euros do pacote de recuperação econômica da UE, o equivalente a R$ 91,7 bilhões (cotação de R$ 5,52 por euro). A boa aplicação desses recursos exige estabilidade administrativa e clareza nos projetos — algo ameaçado pelo cenário atual.
Além disso, o país é um dos principais focos europeus de mineração de lítio, matéria-prima essencial para baterias de veículos elétricos. Projetos importantes no norte de Portugal enfrentam resistência ambiental e exigem regulação clara e estável para avançar. Com o parlamento fragmentado, o progresso pode ser lento.
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Reflexos no Brasil e nos investimentos
Apesar de estar do outro lado do oceano, o cenário político português também interessa aos brasileiros — especialmente aqueles que investem no exterior ou têm planos de imigrar, ou estudar em Portugal.
Portugal é visto como porta de entrada para a Europa, e sua estabilidade institucional sempre foi um atrativo para investidores estrangeiros. Uma crise política prolongada pode levar à desvalorização do euro frente ao real, o que, por um lado, pode baratear viagens e estudos para brasileiros, mas também reduzir a atratividade de imóveis e investimentos no país europeu.
Na manhã desta segunda-feira, 19 de maio, o euro operava em leve queda, cotado a R$ 5,52, após a divulgação dos resultados eleitorais. Investidores observam com atenção os próximos passos de Montenegro e a possibilidade de formar um governo estável.
Chega se fortalece e oposição muda de lado
O grande destaque das eleições foi o desempenho do Chega, partido de ultradireita liderado por André Ventura. Mesmo hospitalizado durante a campanha após um espasmo esofágico, Ventura foi enfático em seu discurso de vitória parcial, dizendo que o Chega “varreu o bloco de esquerda do mapa com estilo”.
Com a queda dos socialistas de centro-esquerda, que passaram de 78 para 58 cadeiras, o Chega pode assumir o papel de principal partido de oposição. Se isso acontecer, será a primeira vez em quase 40 anos que o Parlamento português terá um cenário com a esquerda fora das duas maiores forças políticas.
O socialista Pedro Nuno Santos anunciou sua renúncia após o resultado, reconhecendo a derrota e abrindo espaço para renovação interna no partido.
O que diz o novo primeiro-ministro após as eleições
Montenegro se declarou vitorioso e afirmou que os portugueses “não querem mais eleições antecipadas, querem uma legislatura de quatro anos”. O slogan da campanha, “Deixem o Luís trabalhar”, foi entoado pelos apoiadores.
Porém, sem maioria no parlamento e sem aliança com o Chega, o novo governo começa com sérios desafios. O risco é que a instabilidade se arraste, prejudicando a recuperação econômica e o andamento de projetos que exigem coordenação entre poderes.
A vitória da centro-direita em Portugal marca uma nova etapa na política do país, mas sem maioria parlamentar, o caminho será cheio de obstáculos. O avanço da ultradireita e a fragmentação do parlamento exigirão habilidade política para evitar paralisia administrativa. Para o Brasil, o impacto pode vir via câmbio, investimentos e oportunidades de negócios ou estudo no país europeu. Vale acompanhar os desdobramentos com atenção.


