A confirmação do primeiro foco de gripe aviária em uma granja comercial no Brasil acendeu o sinal de alerta no setor agropecuário e nos mercados de exportação. A China, maior parceira comercial do país, anunciou nesta sexta-feira, 16 de maio, a suspensão das importações de carne de frango brasileira por 60 dias.

A decisão, embora esperada diante dos protocolos internacionais de segurança sanitária, pode gerar consequências tanto para o mercado interno quanto para os consumidores brasileiros.
Hoje, cerca de 10% das exportações brasileiras de frango têm como destino a China. Com o embargo temporário, esse volume precisará ser redirecionado para outros mercados — ou, no caso de excedentes, absorvido pelo mercado interno.
A estimativa é que a restrição imposta por Pequim represente uma perda potencial superior a US$ 100 milhões por mês, o que equivale a aproximadamente R$ 560 milhões mensais, com base na cotação atual do dólar.
Apesar do número expressivo, especialistas avaliam que o impacto imediato deve ser limitado. Segundo Mauricio Palma Nogueira, diretor da consultoria Athenagro, é provável que a China reverta a decisão antes do prazo total de 60 dias, já que até o momento o Brasil registrou apenas um caso isolado da doença, em uma granja no estado do Rio Grande do Sul.
“O mercado está favorável e, considerando a alta demanda mundial por proteínas, o Brasil tem condições de redirecionar suas exportações rapidamente”, afirmou Nogueira. Para o especialista, diferentemente da carne bovina — cuja exportação para a China representa cerca de 40% do total comercializado com o país —, a carne de frango tem maior flexibilidade de destino.
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Preço do frango pode cair, mas por pouco tempo
A suspensão chinesa, se mantida, pode gerar um excedente de carne de frango no mercado brasileiro, o que tende a derrubar os preços no curto prazo. Essa queda pode ser benéfica ao consumidor, ao menos temporariamente. “Haverá mais produto no mercado interno, o que deve provocar uma redução nos preços. Isso é bom para o bolso do brasileiro, mas esse cenário não dura para sempre”, explicou Nogueira.
Caso o cenário se prolongue ou outros países também suspendam as compras, o setor pode reduzir a produção como resposta ao excesso de oferta. “Isso significaria um efeito reverso: a produção diminuiria e os preços voltariam a subir”, acrescentou o especialista.
Para o economista Alexandre Espírito-Santo, da Way Investimentos, as especulações em torno da gripe aviária e possíveis embargos por outros países geram insegurança no setor exportador. “O segmento de proteína já vinha sofrendo nos últimos dias com incertezas, e essa notícia pode pressionar ainda mais. Vai depender da forma como o governo brasileiro e os compradores internacionais lidarem com o caso”, afirmou.
Histórico de embargos e resposta do governo
A decisão da China, embora relevante, não é inédita. Em episódios anteriores, como nos casos de vaca louca, o Brasil também enfrentou restrições temporárias de exportação. “O padrão tem sido o mesmo: suspensões cautelares até a reavaliação sanitária. A diferença é que agora se trata de gripe aviária, que causa uma reação rápida por parte dos países importadores”, comentou Alê Delara, diretor da Pine Agronegócio.
No ano passado, o Japão suspendeu temporariamente as importações de frango após o registro da gripe aviária em aves silvestres brasileiras, mesmo sem envolvimento de granjas comerciais. O governo brasileiro foi elogiado por entidades do setor por sua rápida resposta e controle do foco atual, o que pode ajudar a restabelecer a confiança internacional nas próximas semanas.
Além disso, o Ministério da Agricultura já trabalha com um plano de redirecionamento de exportações e estímulo à produção local, caso o embargo se estenda. Representantes do setor afirmam que, se necessário, o Brasil pode aumentar a participação em mercados como Oriente Médio, África e América Latina, que tradicionalmente compram carne de frango brasileira.
Expectativa é de resolução rápida
A maior parte dos analistas acredita que o problema será resolvido antes de causar impactos duradouros. Ainda assim, a situação serve de alerta para a importância da diversificação dos destinos de exportação e da agilidade na resposta sanitária. Para o consumidor, a recomendação é aproveitar eventuais promoções nos supermercados nas próximas semanas — enquanto durarem os estoques excedentes.
Com um mercado global competitivo e demanda aquecida, o Brasil continua bem posicionado no setor de proteínas, mas a gripe aviária mostra que a vigilância sanitária e a capacidade de reação rápida seguem sendo fatores cruciais para manter a confiança dos compradores e a estabilidade dos preços no país.
*Entrevistas concedidas a CNN


