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“Beber água sem passar mal”: esse é um dos desejos da estudante Mariana, recém transplantada renal

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Resolvi começar este texto de uma forma diferente: se é para dar uma boa notícia, nada melhor que ouvir da própria pessoa.

Fui apresentada a Mariana de Sousa Motta, 26 anos, recém-transplantada. A aparência parecia frágil, mas o depoimento foi de alguém que vem lutando pela vida. Ela nasceu com mielomeningocele (uma lesão medular), que desencadeou uma doença renal crônica. Teve de fazer hemodiálise por nove anos e meio. Há três anos, estava na fila do transplante, que aconteceu no dia 29 de maio.

Mariana Dousa Motta, 26 anos, recém transplantada renal, depois de três anos na fila e 9 anos e meio de hemodiálise | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Mariana Dousa Motta, 26 anos, recém transplantada renal, depois de três anos na fila e 9 anos e meio de hemodiálise | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Quase duas semanas após a cirurgia, lá estava ela se preparando para voltar para casa, na cidade de Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Quando perguntei o que ela iria fazer assim que tivesse alta, ela não titubeou: “Abraçar minha mãe e minha avó, e beber água sem passar mal.” A resposta dá a dimensão exata do sofrimento pelo qual Mariana passou até hoje.

E quais os planos para o futuro? “Estudar Marketing e Publicidade, viajar e viver o que não pude viver até agora”, disse, com o sorriso nos olhos.

Brasil bate recorde de transplantes

Mariana é uma das milhares de pessoas transplantadas todos os anos no Brasil. Em 2024, o país bateu recorde histórico de transplantes realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS): foram mais de 30 mil procedimentos. Segundo o Ministério da Saúde, houve um aumento de 18% em relação a 2022.

Mesmo com essa vitória, atualmente 78 mil pessoas estão na fila de espera por um órgão. Os mais procurados no ano passado foram: rim, córnea e fígado. Já os mais transplantados foram: córnea, rim, medula óssea e fígado.

“O Brasil é referência mundial. Temos o maior programa público de transplantes”, afirma o Dr. Gustavo Ferreira, coordenador do Programa de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora e Conselheiro Geral – América Latina da The Transplantation Society (organização internacional sem fins lucrativos que promove e apoia o transplante de órgãos e tecidos em todo o mundo).

Investimento alto para obter resultados

O médico nefrologista comanda mais de 50 profissionais dedicados exclusivamente à realização de transplantes — equipe que mantém, pelo sexto ano consecutivo, a Santa Casa de Juiz de Fora na primeira posição em Minas Gerais e na quarta colocação no ranking nacional.

Em 2024, foram realizados 237 transplantes, um aumento de 15% em relação a 2022, que teve 205 procedimentos. Esse número deve crescer em 2025, segundo projeções do Dr. Gustavo Ferreira, que fala em 90% de chance de aumento. Atualmente, o hospital possui 1.134 pacientes com rins transplantados em funcionamento.

Ao longo de três décadas, a Santa Casa estruturou uma unidade com capacidade para atender pacientes de todo o Brasil, encaminhados por clínicas de diálise, como foi o caso de Mariana.

E não é mágica. Foram investidos milhões de reais, não apenas na construção da Unidade Avançada de Transplantes (UAT), mas também na capacitação de profissionais. Ainda este mês, o hospital deve receber um citômetro de fluxo, equipamento moderno capaz de medir com precisão a compatibilidade entre doador e receptor. A máquina custou R$ 850 mil reais, valor oriundo de emenda parlamentar.

Cenário brasileiro

O Dr. Gustavo Ferreira estima que existam no país pelo menos 181 mil pessoas em tratamento com hemodiálise ou diálise, mas nem todas têm condições clínicas para o transplante.

Em média, o SUS gasta R$ 60 mil reais por mês por paciente com doença renal crônica, considerando diálise, medicamentos e internações. Quando o transplante é realizado, esse valor pode cair 20% já no primeiro ano — e reduz ainda mais no segundo.

O preconceito ainda é um obstáculo

O Brasil poderia realizar muito mais transplantes se não precisasse vencer a barreira do preconceito. A negativa familiar para a doação de órgãos ainda ultrapassa os 42%.

O nefrologista Gustavo Ferreira atribui essa resistência à falta de conhecimento, resultado da ausência de informação qualificada. “A sociedade ainda não entende a importância da doação”, alerta.

Caminhos para o futuro

Eu, Livia Calmon, acredito que campanhas educativas podem mudar esse cenário e ampliar o número de doadores. A ciência está fazendo sua parte — e o governo também.

O Ministério da Saúde estuda mudanças no Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes (SNT). As alterações devem ser submetidas a consulta pública em setembro.

Também está previsto o lançamento do Programa Nacional de Qualidade em Doação para Transplantes (ProDOT), que pretende capacitar as equipes de doação para acolher as famílias com argumentos mais empáticos e eficazes, aumentando as chances de aceitação.

Não podemos esquecer: a doação é um ato de amor e solidariedade. Um único doador pode salvar mais de oito vidas.

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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