Quem nunca sentiu um “medinho” de algo não dar certo? Aí bate aquele sentimento de querer antecipar a situação. Os especialistas chamam isso de ansiedade.
E as notícias não são animadoras. Um levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019, mostra que o Brasil é o país mais ansioso do mundo e um dos líderes em casos de depressão. Um cenário que se intensificou na pandemia, quando houve um aumento de 25% nos casos de ansiedade e depressão, segundo estudo da Universidade Estadual de Ohio (EUA).

Como se não bastasse esse posicionamento no ranking, vamos roer as unhas por um outro fenômeno que está chamando a atenção da medicina: a ansiedade financeira. Um mal-estar que pode afetar tanto a saúde mental quanto o bem-estar físico das pessoas que a experimentam. É um estado de preocupação constante e excessiva em relação ao dinheiro e à estabilidade econômica — mesmo quando não há uma ameaça concreta de escassez —, caracterizado por sintomas físicos (insônia, taquicardia, tensão muscular), emocionais (culpa, medo, irritabilidade) e comportamentais (dificuldade de falar sobre dinheiro, decisões impulsivas ou paralisia diante de escolhas financeiras).
Do ponto de vista psicológico, essa ansiedade atua de forma semelhante à ansiedade generalizada, mas com foco específico no futuro financeiro e na sensação de falta de controle sobre os recursos.
Não é difícil encontrar uma vítima. Em meio às incertezas econômicas, muita gente tende a sucumbir ao medo causado por problemas financeiros: a chamada “bola de neve”, a dívida que fica maior que a receita, as despesas que não são sanadas — e por aí vai. Assim pode nascer a ansiedade financeira, um estresse intenso que pode levar à depressão, problemas cardiovasculares, insônia ou até mesmo alterações no sistema imunológico.
Estou escrevendo e pensando no cenário de queda nos postos de trabalho no Brasil. Quem entende do riscado diz que o medo de não ter controle sobre o futuro financeiro gera ansiedade crônica — e, muitas vezes, decisões impensadas. Afinal, saúde mental e educação financeira caminham lado a lado.
Eu escrevo, e você lê baixinho
Essa pauta é delicada porque cada um sabe onde o calcanhar aperta, mas é crucial falar sobre isso. Minha argumentação foi discutida com Alesandra Colares, psicóloga clínica e empresarial, com 20 anos de experiência em setores como indústria, logística, educação e comunicação corporativa.
Ela soprou no meu ouvido algumas atitudes do ansioso financeiro: a pessoa evita assuntos ligados a dinheiro ou procrastina decisões importantes, sente culpa mesmo ao gastar com necessidades básicas, compra compulsivamente para aliviar tensões emocionais e depois sente arrependimento, monitora obsessivamente extratos, investimentos ou gastos, e não consegue investir por medo de risco — ou faz investimentos desnecessários buscando alívio emocional.
Tudo isso pode afetar a produtividade no trabalho, gerar conflitos de casal, além dos sintomas físicos já citados. Se você já passou por alguma dessas etapas, fique atento: a coisa é séria. A manifestação pode ser silenciosa ou explosiva.
E agora, Taís?
Vou abrir um parêntese para falar de uma das grandes atrizes brasileiras: Taís Araújo, que, em uma das muitas entrevistas que costuma dar, teve coragem para falar do “medo da escassez” — de forma explosiva, em meio a muitas lágrimas. Ela disse: “É uma loucura, dinheiro é poder, eu tenho uma vida confortável, mas tenho medo da escassez”.
O sentimento não é novo, mas o reconhecimento clínico e social é recente. De acordo com a psicóloga Alesandra Colares, o medo da escassez acompanha a humanidade desde suas origens, por estar ligado à sobrevivência. No entanto, só nas últimas décadas, com o avanço da psicologia do dinheiro e da economia comportamental, passamos a compreender a relação emocional com as finanças como um fator real de sofrimento psíquico.
Crises como a de 2008 e a pandemia de Covid-19 aprofundaram o debate, mostrando que, mesmo pessoas financeiramente estáveis, podem viver um intenso sofrimento emocional em torno do dinheiro.
Freud X Jung
A ansiedade financeira está profundamente ligada à forma como a pessoa construiu sua relação emocional com o dinheiro — que, nesse contexto, vai além do valor de troca: simboliza segurança, autonomia, reconhecimento e poder.
No início do século XX, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, já via o dinheiro como possível substituto de satisfações emocionais, podendo se tornar um canal para expressar neuroses. Palavra de gênio!
E o que pensava Carl Jung? Dinheiro representa não apenas os bens materiais, mas a energia vital e o senso de valor pessoal. Quando isso é reprimido ou distorcido (o que Jung chama de “sombra”), pode se manifestar de maneira negativa — em obsessão, medo crônico de escassez ou autossabotagem financeira.
Vamos ser bem didáticos
O que provoca esse turbilhão de sentimentos negativos? Muitos fatores, experiências vividas e até algumas crenças enraizadas. Algumas pessoas têm medo de repetir as experiências familiares de escassez e endividamento. As crises econômicas, pessoais ou sociais podem deixar marcas dilacerantes. Soma-se a isso a falta de educação financeira, as pressões sociais que impõem padrões de sucesso e até crenças limitantes como “dinheiro não é pra mim” — e por aí vai.
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Brincadeiras à parte, vamos lembrar do personagem da Disney que acumulava moedas sem gastar ou desfrutar da riqueza, com obsessão por economizar e guardar dinheiro.
Podemos juntar aqui as lições de Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2022, que sugere distinguir intuição e razão, reconhecer que os instintos não estão sempre certos, manter o otimismo, perceber a influência dos sentimentos e, por fim, diferenciar resultado de percepção.
Acho que assim é possível cair na real. Traduzindo: todo mundo gosta e precisa de dinheiro — essas são as regras impostas pela sociedade. Cabe a cada um administrar a relação com o dinheiro. E como se faz isso?
Vamos ao tratamento
Nada que sessões com um psicoterapeuta não resolvam. O profissional pode identificar os gatilhos emocionais e ressignificar crenças negativas sobre o dinheiro. Se o problema for familiar, é aconselhada a terapia de casal ou familiar. Os especialistas também sugerem exercícios que ajudem no equilíbrio emocional, como meditação, respiração consciente e, mais do que tudo, aprender a planejar e investir com clareza e controle — a chamada educação financeira.
Ufa! Depois dessa escrita, peguei o lápis, o papel e estou desenvolvendo uma planilha de ganhos e gastos. Espero terminar o mês com algum dinheiro em caixa.


