Nenhuma doença escolhe cara, credo, sexo, idade ou raça. Mas parece que a endometriose persegue as celebridades, e a lista é longa: Anitta, Patrícia Poeta, Wanessa Camargo, Larissa Manoela, Giovanna Ewbank, Gisele Bündchen, Demi Lovato, Lena Dunham, Isabella Santoni, Gabriela Pugliesi, Fernanda Souza, Bruna Marquezine, Juliana Paes, Sabrina Sato, Paloma Duarte, Alinne Moraes… todas vieram a público falar sobre a doença que provoca dores insuportáveis.
Para entender melhor esse mal, conversei com o Dr. Túlio Gonçalves dos Reis, médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia, mestre em Cirurgia Minimamente Invasiva e professor do curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora (MG).
Vamos começar pelo básico: o que é endometriose?
É uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio (camada que reveste o útero internamente) fora da cavidade uterina, acometendo frequentemente ovários, trompas, peritônio, bexiga e intestino. Esses implantes ectópicos — localizados fora do padrão — respondem aos hormônios do ciclo menstrual, levando a processos inflamatórios locais, dor pélvica, formação de aderências e, em muitos casos, infertilidade.

Pasmem: descobrir a doença não é fácil. Segundo o especialista, “o diagnóstico é notoriamente desafiador. Não existem biomarcadores não invasivos validados para detecção ou exclusão da doença. O atraso diagnóstico é significativo. O tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo varia de 5 a 12 anos, com múltiplas consultas e, frequentemente, minimização dos sintomas tanto por pacientes quanto por profissionais de saúde”, alerta.
Fiquei imaginando uma pessoa vivendo de 5 a 12 anos com dores sem saber o motivo. Ninguém merece. A confirmação chamada padrão-ouro é feita através da visualização laparoscópica das lesões — a laparoscopia diagnóstica é um procedimento pouco invasivo utilizado para avaliar doenças intra-abdominais ou pélvicas —, preferencialmente com confirmação histológica.
Mas o médico acrescenta que o diagnóstico clínico, baseado em sintomas, exame físico e exames de imagem, está sendo cada vez mais valorizado para evitar atrasos no início do tratamento.
A ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética têm conseguido fornecer resultados mais exatos para endometriomas e endometriose profunda, mas ainda apresentam baixa sensibilidade para lesões superficiais.
Entre mitos, dor e negligência: o que as mulheres enfrentam
Toda mulher conhece seu próprio corpo. Por isso, é crucial ficar atenta aos sinais: dor pélvica crônica, cólica menstrual intensa, dor durante a relação sexual, alterações intestinais e urinárias no período menstrual e infertilidade. E preste atenção nesse relato do Dr. Túlio dos Reis: “Em muitos casos, fatores culturais e sociais, como a normalização da dor menstrual, estigmatização e falta de conhecimento, dificultam a valorização das queixas das pacientes”.
Vou traduzir: não é “mimimi” quando a mulher diz que está com cólica, que sente incômodo durante a relação sexual ou que não consegue explicar a dor. Muitas de nós, infelizmente, temos no nosso DNA a insensatez de dar ouvidos aos outros e não nos escutarmos. Por isso, meu conselho é: sentiu qualquer coisa diferente, procure o médico. E não o Google, nem as receitas da vovó ou os conselhos da vizinha — ou corre o risco de ouvir a máxima: “Agora é tarde, a Inês é morta”.
“Síndrome do intestino irritável”
A endometriose pode ser confundida com outros males como síndrome do intestino irritável, infecções urinárias, miomas e cólicas menstruais comuns. Essa sobreposição de sintomas pode levar ao caminho errado, contribuindo para o atraso no diagnóstico.
Aqui não cabe o ditado “Antes tarde do que nunca”. Muito pelo contrário: a endometriose não tem cura. É considerada uma doença crônica, mas pode ser tratada. Os sintomas podem ser controlados, preservando a fertilidade e melhorando a qualidade de vida.
Tem mulheres que precisam passar por cirurgia quando a dor é intensa, quando não respondem ao tratamento clínico, quando há comprometimento de órgãos como intestino ou bexiga, ou quando desejam engravidar e a endometriose está dificultando o processo.
O procedimento cirúrgico está associado à melhora da dor e, em casos de infertilidade, pode ajudar. Mas mesmo após cirurgia ou uso prolongado de hormônios, as recidivas são frequentes — tanto dos sintomas quanto das lesões.
O perfil de risco inclui mulheres em idade reprodutiva (entre 20 e 40 anos), especialmente aquelas que tiveram a primeira menstruação muito cedo (antes dos 8 anos), com ciclos curtos, fluxo intenso, histórico familiar e anomalias congênitas.
Dr. Túlio Reis é categórico: “A endometriose pode acometer qualquer mulher em idade fértil, mas fatores genéticos e ambientais modulam o risco individual e devem ser investigados”.
Atuação do SUS
Dados do Ministério da Saúde mostram que o SUS tem registrado aumento significativo nos atendimentos relacionados ao diagnóstico de endometriose. Em 2022, foram 82.693; em 2023, esse número subiu para 115.765. Já os dados preliminares de 2024 atingiram a marca de 145.744 atendimentos. Um crescimento de cerca de 76% em três anos, refletindo a ampliação da demanda por serviços de saúde.
- É fato: a endometriose é a principal causa de infertilidade feminina.
- É fato: o SUS gasta milhões no tratamento dessas mulheres. Cirurgias em clínicas particulares podem custar de R$ 80 mil a R$ 100 mil, a depender da gravidade. E os medicamentos não são baratos.
- É fato: a Previdência Social também arca com aposentadorias por invalidez e auxílios-doença, pois a endometriose está na lista de doenças que garantem esse direito.
O que não é plausível é que essas mulheres levem tantos anos para ter um diagnóstico. Isso é grave.
Recentemente, em audiência no Senado, o médico Jean Pierre Barguil declarou: “Não é aceitável uma demora de 10 anos para se chegar ao diagnóstico de endometriose”. Eu concordo. Também assino embaixo do ginecologista Norberto Maffei Jr., que disse: “O Estado e os médicos têm falhado miseravelmente com as mulheres vítimas da endometriose”.
Faço coro com esses profissionais: precisamos de mais investimento em campanhas educativas, que podem reduzir o gasto com cirurgias. Educar sai mais barato que tratar. E gerações mais conscientes custam menos e vivem melhor. Tenho dito!


