O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira, 6 de agosto, que pretende discutir com os líderes do Brics — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, entre outros países em expansão — uma resposta coordenada às tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.
A declaração foi dada em entrevista à agência de notícias Reuters, após a Casa Branca anunciar medidas que afetam diretamente produtos brasileiros, indianos e de outras nações que integram o bloco.

No mesmo dia, entraram em vigor tarifas de 50% sobre parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos, segundo informou o Ministério da Fazenda. A decisão do governo norte-americano foi formalizada por decreto do presidente Donald Trump, que também impôs uma tarifa adicional de 25% sobre produtos da Índia, alegando que o país continua importando petróleo russo, mesmo após sanções ocidentais.
Lula afirmou que ligará para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e para o presidente da China, Xi Jinping, para avaliar a situação de cada país e construir uma posição conjunta. “Vou tentar fazer uma discussão com eles sobre como cada um está dentro da situação, qual é a implicação que tem em cada país, para a gente poder tomar uma decisão”, declarou o presidente.
Impacto das tarifas no Brasil
De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior do Brasil (Secex), os Estados Unidos foram o segundo principal destino das exportações brasileiras em 2024, com US$ 35,2 bilhões embarcados. Isso representa aproximadamente R$ 191,2 bilhões, considerando a cotação de R$ 5,43 para o dólar em agosto de 2025. Com as novas tarifas de 50%, parte desse valor poderá ser comprometido, principalmente em setores como aço, alumínio e produtos manufaturados.
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A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota alertando que as medidas protecionistas dos EUA tendem a reduzir a competitividade das exportações brasileiras e podem causar prejuízos em empregos e investimentos. O governo federal, por sua vez, estuda formas de mitigar os impactos econômicos da decisão americana.
Uma medida provisória com ações emergenciais de apoio às empresas afetadas foi encaminhada ao Palácio do Planalto pelo Ministério da Fazenda. A proposta prevê linhas de crédito com taxas subsidiadas, apoio à inserção em novos mercados e incentivos para diversificação da pauta exportadora.
Sem espaço para diálogo com Trump, diz Lula
Lula afirmou que não vê abertura para negociação direta com o presidente Donald Trump neste momento. “Eu não liguei porque ele não quer telefonema. Não tenho por que ligar para o presidente Trump, porque nas cartas que ele mandou e nas suas decisões ele não fala em nenhum momento em negociação, o que ele fala é em novas ameaças”, disse.
Segundo o presidente, o Brasil continuará buscando soluções diplomáticas e econômicas antes de adotar medidas retaliatórias. “Poderia anunciar uma taxação dos produtos americanos. Não vou fazer porque não quero ter o mesmo comportamento do presidente Trump. Eu quero mostrar que quando um não quer, dois não brigam”, declarou.
Apesar disso, Lula demonstrou insatisfação com a forma como a decisão foi comunicada ao Brasil. “Recebemos o comunicado da taxação de forma totalmente autoritária. Não é assim que estamos acostumados a negociar”, afirmou.
Questões de soberania e críticas às big techs
Além da questão tarifária, Lula também criticou trechos do decreto de Trump que mencionam a legislação brasileira voltada às big techs, as grandes empresas de tecnologia com sede nos EUA. O presidente brasileiro reiterou que a regulamentação desse setor é responsabilidade exclusiva do Congresso Nacional e das instituições brasileiras.
“Esse país é soberano, tem uma Constituição, tem uma legislação. É nossa obrigação regular o que a gente quiser regular de acordo com os interesses e a cultura do povo brasileiro. Se não quiser regulação, saia do Brasil”, afirmou.
A tensão entre os dois países ocorre em meio à tentativa do Brasil de manter sua inserção econômica internacional em um cenário geopolítico cada vez mais polarizado. Lula defende que o Brics, bloco que passou a contar com 10 países-membros após a entrada de Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, atue com maior protagonismo nas decisões econômicas globais.
A próxima reunião de cúpula do grupo está prevista para outubro de 2025, em Moscou. Até lá, o governo brasileiro pretende intensificar os contatos diplomáticos com os demais integrantes do Brics para avaliar uma resposta conjunta às ações comerciais dos Estados Unidos.


