152 mil pessoas que vivem na cidade de São Paulo levam mais de duas horas no deslocamento entre casa e trabalho, conforme o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado nesta quinta-feira, 9 de outubro. O total representa o maior número entre os municípios brasileiros e equivale à população de uma cidade como Pouso Alegre, em Minas Gerais.

Quem usa transporte público enfrenta os maiores trajetos
Entre as pessoas que passam mais de duas horas no caminho até o emprego, 87% utilizam transporte público, como ônibus, trem ou metrô. Apenas 6,4% fazem esse percurso de carro.
São Paulo tem cerca de 11,4 milhões de habitantes e uma frota de 12,8 mil ônibus municipais. O metrô conta com 104 quilômetros de extensão e, somado à malha da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), o sistema metroferroviário chega a 380 quilômetros. Mesmo assim, a infraestrutura não tem sido suficiente para reduzir os longos deslocamentos.
O ônibus é o meio de transporte mais usado pelos trabalhadores da cidade: 37% dos que se deslocam pelo menos três vezes por semana dependem dele. O automóvel aparece em segundo lugar, com quase 30% dos trajetos.
São Paulo tem um dos piores tempos de deslocamento do país
Entre as capitais brasileiras, São Paulo ficou com o segundo pior índice de tempo de trajeto, atrás apenas do Rio de Janeiro. Segundo o IBGE, 28% dos paulistanos levam mais de uma hora para chegar ao serviço. Somente 4% completam o caminho em até cinco minutos.
Outros 31% gastam entre 30 minutos e uma hora. Isso significa que boa parte da população passa mais de quatro horas diárias entre ida e volta do trabalho, muitas vezes em trens e ônibus lotados.
Diferenças sociais ampliam o tempo de viagem
Os dados do Censo também mostram que o tempo de deslocamento varia conforme renda, cor e escolaridade. Entre quem ganha até meio salário mínimo (R$ 606, em valores de 2022), 38% levam mais de uma hora até o local de trabalho. Já entre os que recebem mais de cinco salários mínimos (R$ 6.060), esse percentual cai para 12%.
A desigualdade também aparece quando se observa a cor da pele. Entre trabalhadores brancos, um em cada quatro (25%) gasta mais de uma hora no trajeto. Entre pretos, a proporção sobe para 36%. A diferença é de 11 pontos percentuais, maior do que a média nacional, que é de 7 pontos.
O nível de estudo também influencia. Entre pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, 37% levam mais de uma hora até o trabalho. Entre quem concluiu o ensino superior, esse número é de 22%.
Essas diferenças mostram como o tempo gasto no transporte está ligado à desigualdade urbana. Moradores de áreas periféricas, com renda menor e menos acesso a oportunidades, acabam levando mais tempo para chegarem ao trabalho.
Uso do carro encurta trajeto, mas tem impacto na cidade
O levantamento indica que 609 mil paulistanos conseguem chegar ao trabalho em até meia hora usando automóvel, total ou parcialmente. Já entre os usuários de ônibus, apenas 242 mil fazem o mesmo percurso nesse tempo, o equivalente a 16% dos passageiros.
Embora o carro reduza o tempo individual de viagem, o aumento de veículos nas ruas provoca outros problemas, como congestionamentos, poluição e mais acidentes. Além disso, reforça desigualdades, já que o transporte público segue como a única opção viável para milhões de pessoas.
A superlotação e as longas distâncias entre as moradias e os centros de emprego explicam por que o deslocamento ainda é tão demorado, mesmo em uma cidade com grande oferta de linhas e frotas.
Região metropolitana também sofre com longos percursos
O cenário se repete nos municípios vizinhos. Na região metropolitana, 90% dos que passam mais de meia hora no trajeto usam trem ou metrô. A integração entre diferentes modais ainda é limitada e a distância até o local de trabalho é um dos principais fatores para o aumento do tempo de viagem.
Mesmo sendo o maior sistema de transporte coletivo do país, São Paulo e sua região metropolitana continuam enfrentando atrasos, intervalos longos e falta de conforto. As áreas mais distantes do centro são as que mais sofrem com isso.


