O avanço do envelhecimento demográfico começou a impactar o crescimento econômico de diversos países, segundo o relatório anual do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), divulgado em 25 de novembro.
O documento alerta que a queda na população em idade ativa está reduzindo o ritmo de expansão econômica e pode provocar efeitos de longo prazo caso governos não adotem medidas estruturais.
A análise, que abrange economias da Europa emergente e regiões próximas, aponta que a proporção de trabalhadores em relação ao total da população diminui de forma acelerada. O banco estima que, entre 2024 e 2050, o PIB (Produto Interno Bruto) per capita desses países deve perder em média 0,4 ponto percentual por ano devido à redução da força de trabalho. As informações foram divulgadas pela agência Reuters, que teve acesso ao relatório.
Leia também: Desigualdade educacional no Brasil: ritmo atual empurra equiparação entre negros e brancos para o futuro distante

Demografia e desaceleração econômica
Segundo Beata Javorcik, economista-chefe do BERD, as tendências demográficas já provocam efeitos mensuráveis no desempenho econômico. Ela declarou à Reuters que o envelhecimento populacional está corroendo o crescimento dos padrões de vida e se tornará um obstáculo ainda maior para o PIB nas próximas décadas.
O relatório destaca que muitos países pós-comunistas estão envelhecendo antes de alcançar níveis elevados de renda. Nessas nações, a idade média populacional chegou a 37 anos quando o PIB médio per capita alcançou US$ 10 mil, cerca de R$ 55 mil na cotação aproximada de novembro de 2025 divulgada pelo Banco Central. Esse valor representa apenas um quarto do patamar das economias avançadas quando atingiram idade mediana semelhante na década de 1990.
Entre os fatores associados à queda na taxa de natalidade estão transformações nas normas sociais, custos mais altos de criação de filhos e impactos sobre a carreira das mulheres após o nascimento de um bebê. O estudo menciona ainda que, apesar de diversos governos adotarem incentivos à natalidade ao longo dos últimos anos, nenhuma dessas medidas alcançou resultados amplos e sustentados.
Limites para expansão da migração e uso de tecnologia
O relatório do BERD aponta desafios na tentativa de compensar a queda populacional por meio da migração. Segundo o documento, a quantidade de imigrantes necessária para neutralizar o cenário demográfico atual não é politicamente aceitável na maior parte dos países analisados.
A pesquisa mostra ainda que a maioria dos cidadãos se mantém ambivalente quanto à adoção mais intensa de tecnologias como inteligência artificial para elevar a produtividade e, assim, reduzir os impactos da diminuição da mão de obra. Essa hesitação cria mais obstáculos para políticas que possam suavizar a desaceleração econômica.
Esse movimento reforça o diagnóstico de que somente a migração e a tecnologia não são suficientes para equilibrar a pressão demográfica. As economias enfrentam o desafio de lidar simultaneamente com envelhecimento acelerado, baixa natalidade e resistência social a mudanças profundas nos modelos de produção.
Impacto no mercado de trabalho e nos sistemas previdenciários
Entre os efeitos diretos da queda da população em idade ativa está o aumento da pressão sobre os sistemas previdenciários. Modelos de repartição, nos quais trabalhadores ativos financiam aposentadorias, dependem da proporção entre contribuintes e beneficiários para manter equilíbrio financeiro.
Beata Javorcik ressaltou que eleitores mais jovens precisarão compreender que serão responsáveis por sustentar o peso crescente desses regimes, caso mudanças estruturais não ocorram. De acordo com ela, é necessário ampliar o debate público sobre as consequências das tendências demográficas para o futuro das contas públicas.
O relatório afirma que a maior alavanca para reduzir o impacto econômico do envelhecimento é permitir que as pessoas trabalhem por mais tempo. Para isso, seriam necessários programas de retreinamento profissional, ampliação da qualificação e ajustes nos esquemas de aposentadoria. A proposta envolve estender a participação dos trabalhadores maduros no mercado, reduzindo a velocidade da queda da força laboral.
Cenário global de envelhecimento
A desaceleração do crescimento populacional não é restrita à Europa emergente. Países de economias avançadas também enfrentam desafios semelhantes, especialmente aqueles com taxas de natalidade abaixo do nível de reposição. O relatório do BERD reforça que esse movimento global já altera padrões de consumo, produtividade e demanda por serviços públicos.
Projeções internacionais do Fundo Monetário Internacional e da Organização das Nações Unidas também mostram tendência semelhante. Em muitas regiões, a velocidade do envelhecimento supera a capacidade de os governos adaptarem sistemas de saúde e previdência. O estudo do BERD acrescenta que a falta de mudanças estruturais pode ampliar desigualdades e comprometer o ritmo de desenvolvimento econômico nas próximas décadas.
Desafios para políticas públicas
Os autores do relatório afirmam que a combinação de baixa natalidade, resistência à migração e aumento da expectativa de vida cria um cenário de longo prazo que exige planejamento. Para os economistas envolvidos no estudo, conversas claras entre governos e sociedade serão fundamentais para ajustar políticas previdenciárias, trabalhistas e sociais.
Apesar das divergências políticas sobre possíveis soluções, o relatório destaca que maioria dos países analisados enfrenta realidades semelhantes e que medidas precisam ser discutidas com antecedência. O documento conclui que tendências demográficas continuarão influenciando o crescimento global e exigem atenção constante de formuladores de políticas públicas.


