Mesmo com melhorias importantes nos últimos anos, a desigualdade entre estudantes negros e brancos continua presente em praticamente todas as etapas da educação brasileira. É o que mostra um estudo divulgado nesta terça-feira, 25 de novembro, pelo Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), com base em dados da Pnad Contínua.
A pesquisa analisou a escolaridade de pessoas negras entre 2012 e 2023 e apresentou 31 indicadores inéditos sobre acesso, permanência e conclusão dos estudos. O levantamento confirma que houve avanços, especialmente devido a políticas afirmativas, como a Lei de Cotas, que ampliou a entrada de negros no ensino superior.

Mais negros na universidade, mas distância para brancos cresce
Um dos pontos que mais chamam atenção no estudo é o aumento no número de pessoas negras com diploma universitário. Entre as mulheres negras com mais de 25 anos, a taxa de conclusão do ensino superior passou de 7,9% em 2012 para 14,9% em 2023. Entre os homens negros, o índice subiu de 5,3% para 11,2%.
Apesar do avanço, a desigualdade ficou ainda maior. No mesmo período, mulheres brancas chegaram a 30,3% com ensino superior completo, e homens brancos a 25,9%. Ou seja: os dois grupos evoluíram, mas os brancos avançaram em ritmo mais rápido, aumentando a distância.
O Cedra explica que, em muitos casos, os resultados das pessoas negras em 2023 são equivalentes aos dos brancos em 2012. Isso evidencia o quanto o processo de equiparação avança lentamente.
Baixa escolaridade ainda afeta um terço dos negros
A desigualdade também aparece antes da universidade. Em 2023, 33,2% das pessoas negras com mais de 15 anos ainda estavam sem instrução ou com o ensino fundamental incompleto, praticamente o mesmo patamar que os brancos tinham há mais de dez anos.
O índice caiu na última década, diminuindo a diferença entre negros e brancos de 13,6 para 9,1 pontos percentuais. No entanto, a desigualdade ainda é considerada alta. Entre as mulheres negras, 31,6% permanecem nesse grupo; entre os homens negros, 34,9%.
Para o Cedra, os dados mostram melhora, mas reforçam que a redução das desigualdades avança em ritmo insuficiente para que a igualdade educacional seja alcançada nas próximas décadas.
Queda do analfabetismo é destaque, mas diferença continua
O analfabetismo diminuiu de forma importante entre 2012 e 2023, especialmente entre os jovens. Entre negros de 15 a 29 anos, a taxa caiu de 2,4% para 0,9%. Entre brancos da mesma idade, passou de 1,1% para 0,6%.
Apesar da melhora, mulheres negras acima de 15 anos ainda têm o dobro do índice de analfabetismo das mulheres brancas (6,6% contra 3,3%). Entre homens negros, o Cedra afirma que a situação “é ainda pior”, porque a diferença não diminuiu no mesmo ritmo observado entre as mulheres.
O estudo também aponta avanços entre jovens de 15 a 19 anos. Entre homens negros, o percentual de pessoas com fundamental incompleto caiu de 40% para 21,3%. Entre mulheres negras, a queda foi de 29,6% para 15,7%. Ainda assim, os números seguem acima dos registrados entre jovens brancos.
No ensino médio e na entrada na faculdade, avanço é muito lento
No momento de concluir o ensino médio e tentar uma vaga no ensino superior, a desigualdade praticamente não mudou na última década. Em 2016, 26,4% dos jovens brancos de 18 a 24 anos estavam matriculados na faculdade, enquanto apenas 13% dos negros frequentavam o ensino superior. Em 2023, esses números passaram para 28,3% e 15,3%, respectivamente.
Entre idosos, a desigualdade aparece de forma mais intensa. Em 2012, mais de um terço dos negros com mais de 60 anos eram analfabetos. Embora tenha havido redução significativa, inclusive entre brancos, a diferença permanece alta.
Equiparação pode levar gerações
O Cedra conclui que, mesmo com avanços importantes, a desigualdade racial no acesso e na permanência na escola ainda é profunda. Segundo o centro, pessoas negras continuam enfrentando barreiras que influenciam toda a trajetória escolar, desde as primeiras séries até a conclusão do ensino superior.
O estudo reforça que políticas públicas têm papel fundamental na redução dessas diferenças, mas alerta que, no ritmo atual, o país ainda levará muito tempo para garantir igualdade de oportunidades entre estudantes negros e brancos.


