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Conselho de Paz para Gaza: o que é o órgão criado por Trump, quem participa e por que a proposta gera controvérsia?

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta semana a criação de um “Conselho de Paz” voltado para a Faixa de Gaza, território palestino no Oriente Médio. A iniciativa foi apresentada durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, e faz parte do plano do governo americano para a segunda fase do cessar-fogo entre o conflito de Israel e o Hamas.

Trump cria Conselho de Paz para Gaza
Apesar do impacto político do anúncio, Trump não detalhou como o conselho vai funcionar, quais serão suas regras nem como as decisões serão colocadas em prática | Foto: Reprodução / Divulgação / Casa Branca

Mesmo assim, a proposta já provocou reações fortes no cenário internacional. Alguns países demonstraram apoio imediato, enquanto outros passaram a analisar com cautela os efeitos da criação de um órgão que pode reduzir o papel da Organização das Nações Unidas (ONU) na mediação de conflitos.

O que Trump propõe com o Conselho de Paz?

Segundo o governo dos Estados Unidos, o Conselho de Paz foi pensado para acompanhar a reconstrução de Gaza após mais de dois anos de guerra e destruição. A ideia é que o órgão atue como uma instância de supervisão (responsável por fiscalizar o cumprimento das regras) política e financeira de um comitê formado por técnicos palestinos, responsáveis pela administração provisória do território.

Trump afirmou que o objetivo é deixar Gaza “desmilitarizada, bem administrada e reconstruída”. Na visão do presidente, o conselho ajudaria a encerrar o conflito de forma definitiva e garantir estabilidade na região. A Casa Branca descreveu a criação do órgão como um passo essencial para promover paz e segurança.

Apesar disso, pontos centrais do plano seguem indefinidos. Um dos mais delicados é a desmilitarização do território. O Hamas, grupo político e armado palestino que governa a Faixa de Gaza e está no centro do conflito com Israel, já declarou que não abrirá mão de suas armas sem a criação de um Estado palestino independente, enquanto Israel não se comprometeu com uma retirada total de Gaza.

Outro aspecto que chama atenção é o papel reservado ao próprio Trump, já que todas as decisões do conselho, mesmo aquelas aprovadas pela maioria dos países participantes, dependeriam da aprovação final dele. Na prática, isso colocaria Trump como a principal autoridade sobre os rumos de Gaza.

Relação com a ONU e críticas do presidente americano

Durante o anúncio, Trump disse que o conselho atuará em cooperação com a ONU, mas fez críticas diretas à organização. Ele afirmou que a entidade não conseguiu resolver conflitos internacionais e que teria “falhado” em encerrar guerras que, segundo ele, foram solucionadas por seu governo desde janeiro de 2025.

O presidente também disse que nunca foi procurado pela ONU para discutir essas iniciativas. As declarações reforçam um discurso recorrente de Trump, que costuma afirmar que a organização tem potencial, mas não consegue entregar resultados concretos.

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A criação do conselho pode representar uma tentativa de criar uma estrutura paralela ao sistema tradicional. Essa possibilidade explica a cautela demonstrada por alguns países, especialmente na Europa e na América Latina.

Quem foi convidado e quem já confirmou participação?

Trump afirmou que até 59 países estariam envolvidos no Conselho de Paz, número superior ao divulgado inicialmente pelo próprio governo americano, e que cerca de 35 líderes mundiais já aceitaram participar do órgão.

Entre os países que confirmaram adesão estão Israel, Catar e Egito, que tiveram papel importante na negociação do cessar-fogo. Também aceitaram o convite nações da Europa, da Ásia e da América Latina.

Entre os líderes que concordaram em participar estão Benjamin Netanyahu, de Israel, e Vladimir Putin, da Rússia, embora o líder de Moscou tenha informado que ainda analisa os termos da entrada. Outros países que sinalizaram apoio incluem Marrocos, Paquistão, Indonésia, Kosovo, Uzbequistão, Cazaquistão, Paraguai e Vietnã.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também foi convidado, mas ainda não respondeu. Trump disse que Lula poderia ter um “papel importante” no conselho. O Reino Unido, por outro lado, indicou que não deve participar neste primeiro momento, citando preocupação com a presença da Rússia no grupo.

Nesta semana, Arábia Saudita, Catar, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Indonésia e Paquistão divulgaram uma nota conjunta anunciando adesão ao conselho e defendendo um cessar-fogo permanente, além do apoio à reconstrução de Gaza.

Quem compõe o Conselho Executivo?

Além dos países participantes, Trump anunciou um Conselho Executivo fundador, formado por políticos e empresários. Entre os nomes estão o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff, o genro do presidente, Jared Kushner, e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Também fazem parte do grupo executivos do setor financeiro, como Marc Rowan, e o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga.

A presença de empresários no núcleo do conselho gerou críticas. Trump já se referiu a Gaza como uma área com grande potencial econômico, o que levantou suspeitas de que a reconstrução possa abrir espaço para grandes projetos privados. Para críticos, isso pode misturar interesses econômicos com decisões políticas e humanitárias.

Como o conselho deve funcionar?

O estatuto do Conselho de Paz entraria em vigor assim que três países aceitassem formalmente participar. Os mandatos seriam de três anos, com possibilidade de renovação. Segundo esses documentos, países que contribuírem com pelo menos US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,1 bilhões) poderiam obter assentos permanentes no conselho. As decisões seriam tomadas por maioria simples, mas todas dependeriam da validação final do presidente dos Estados Unidos.

Especialistas apontam que esse formato concentra poder e reduz mecanismos de equilíbrio existentes em organismos internacionais tradicionais, como o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU.

Gaza no centro, mas com alcance maior

Embora o foco inicial seja Gaza, o estatuto não menciona o território palestino de forma exclusiva. Analistas avaliam que o conselho pode servir como modelo para futuras intervenções em outros conflitos internacionais. Trump afirmou que o órgão ajudará a reduzir tensões na Europa, na América e no Oriente Médio. A leitura de especialistas é que o presidente busca se consolidar como mediador global, em linha com sua campanha para o Prêmio Nobel da Paz.

Trump afirma ter ajudado a resolver oito conflitos desde o início de seu segundo mandato. Em vários desses casos, no entanto, os acordos seguem instáveis ou novos confrontos já foram registrados.

Reações internacionais e preocupação com o sistema global

A criação do conselho ocorre em um momento de desgaste do sistema internacional criado após a Segunda Guerra Mundial. Para críticos, o órgão pode enfraquecer ainda mais a ONU ao concentrar decisões em uma estrutura liderada por um único país.

A China declarou que defenderá uma ordem internacional com a ONU no centro e afirmou que ainda analisa o convite. O Vaticano confirmou que o papa recebeu o convite, mas disse que precisará de tempo para decidir. Já a Eslovênia recusou a participação, alegando que a iniciativa interfere na ordem internacional.

Um cessar-fogo frágil e muitos obstáculos

Enquanto o debate político avança, a situação em Gaza segue instável. A primeira fase do cessar-fogo incluiu troca de reféns, retirada parcial de tropas israelenses e aumento da entrada de ajuda humanitária. A segunda fase, que prevê desmilitarização e reconstrução, enfrenta grandes obstáculos.

Desde o início da trégua, em outubro de 2025, centenas de palestinos morreram em novos ataques, segundo autoridades locais, enquanto Israel também registrou baixas em suas forças. A guerra começou após o ataque do Hamas ao sul de Israel em 7 de outubro de 2023, que deixou cerca de 1.200 mortos e 251 reféns. A resposta israelense resultou em mais de 71 mil mortos em Gaza, de acordo com dados do Ministério da Saúde do território.

O que está em jogo com o novo conselho?

O Conselho de Paz criado por Trump nasce cercado de promessas ambiciosas e muitas dúvidas. Para alguns governos, pode acelerar a reconstrução de Gaza e ajudar a consolidar o cessar-fogo. Para outros, representa um risco ao equilíbrio do sistema internacional, ao concentrar poder nas mãos de um único líder e abrir espaço para interesses políticos e econômicos.

Sem regras claras, financiamento definido e consenso global, o futuro do conselho ainda é incerto. O que já está claro é que a iniciativa recoloca os Estados Unidos no centro do debate sobre Gaza, desta vez não apenas como aliado de Israel, mas como possível gestor político e financeiro de um do conflito.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

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