A conservadora Keiko Fujimori venceu a eleição presidencial do Peru após a conclusão da contagem de 100% dos votos. Segundo a Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), ela recebeu 9.223.396 votos, o equivalente a 50,13% dos votos válidos. O candidato de esquerda Roberto Sánchez terminou a disputa com 9.173.755 votos. A diferença entre os dois candidatos foi de apenas 49.641 votos, uma margem considerada bastante estreita para uma eleição presidencial.

De acordo com o cronograma divulgado pelas autoridades eleitorais, a proclamação oficial do resultado deverá ocorrer por volta do dia 3 de julho. A entrega das credenciais à chapa vencedora está prevista para o dia 15 do mesmo mês.
Após o encerramento da contagem, Keiko publicou uma mensagem nas redes sociais afirmando que o Peru está “cada vez mais perto” de iniciar um “caminho de ordem e esperança”. Na publicação, ela disse que aguardava a decisão oficial da Justiça Eleitoral “com humildade, prudência e responsabilidade”.
Disputa foi marcada por reviravoltas e questionamentos
A eleição foi marcada por uma apuração demorada e por mudanças na liderança entre os candidatos. A contagem dos votos levou 22 dias para ser concluída por causa da revisão de cédulas contestadas, da chegada tardia dos votos de peruanos residentes no exterior e da pequena diferença registrada entre os dois concorrentes.
Nos primeiros dias da apuração, Keiko apareceu na liderança. Em seguida, Roberto Sánchez assumiu a dianteira durante a contagem, mas a candidata voltou a ficar à frente na madrugada de 11 de junho e manteve a vantagem até o encerramento da apuração.
Durante esse período, Sánchez afirmou que estaria ocorrendo uma fraude eleitoral, mas não apresentou provas. O candidato também declarou que não reconheceria o resultado da eleição e pediu a anulação de milhares de votos de peruanos que vivem no exterior, alegando irregularidades.
O pedido foi analisado pelo júri eleitoral peruano e acabou rejeitado. Segundo representantes do Conselho Nacional Eleitoral, os tribunais aguardam apenas o encerramento do prazo para apresentação de recursos e a análise das últimas contestações antes da confirmação oficial do resultado.
Campanha teve foco em imigração e economia
Ao longo da campanha, Keiko Fujimori concentrou suas propostas em temas ligados à segurança, à imigração e à economia. Na área migratória, afirmou que pretende expulsar estrangeiros que estejam no Peru sem documentação regular. A medida atinge principalmente a comunidade venezuelana, considerada a maior população estrangeira do país. Segundo os dados apresentados durante a campanha, cerca de 1,6 milhão de venezuelanos vivem atualmente no Peru, sendo aproximadamente 14% sem autorização de residência.
Na economia, a candidata defendeu a continuidade das políticas implantadas durante o governo de seu pai. Entre as propostas apresentadas está a redução do déficit fiscal, que é a diferença entre os gastos e a arrecadação do governo, para 1% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2031. Em 2025, esse índice ficou em 2,2%, um dos menores da América Latina.
Durante a disputa, Keiko também buscou diferenciar suas propostas das defendidas por Roberto Sánchez. Embora o candidato de esquerda tenha moderado parte do discurso econômico no segundo turno, os dois apresentaram projetos diferentes para a condução da economia peruana.
Filha do ditador Alberto Fujimori chega ao poder na quarta tentativa
A eleição representa a primeira vitória de Keiko Fujimori depois de três derrotas consecutivas em disputas presidenciais. Esta foi sua quarta candidatura ao cargo e também a primeira realizada após a morte de seu pai, Alberto Fujimori, em 2024.
Keiko, de 51 anos, lidera o partido Força Popular e construiu sua trajetória política ligada ao legado do ex-presidente peruano. Alberto Fujimori governou o Peru entre 1990 e 2000. Em 1992, fechou o Congresso, suspendeu a Constituição, interveio no Poder Judiciário e passou a governar por decreto com apoio das Forças Armadas. O episódio ficou conhecido como “autogolpe” e marcou o início de um regime ditatorial. Posteriormente, ele foi condenado por crimes contra a humanidade e corrupção, permanecendo cerca de 16 anos preso.
Durante a campanha, Keiko voltou a defender o legado político do pai, principalmente na área econômica e no combate à violência. Ao mesmo tempo, sua candidatura manteve vivo o debate sobre o período em que Alberto Fujimori esteve no poder, lembrado por apoiadores pela estabilização da economia e pelo enfrentamento ao grupo Sendero Luminoso, mas também criticado pelas violações de direitos humanos, pelo autoritarismo e por casos de corrupção.
A trajetória política da nova presidente também foi marcada por investigações judiciais. Ela chegou a ser acusada de lavagem de dinheiro em um processo relacionado à construtora brasileira Odebrecht e permaneceu presa por mais de um ano. Em 2025, porém, o Tribunal Constitucional arquivou o caso, decisão que permitiu sua candidatura nas eleições deste ano.
Vitória reforça avanço da direita na América Latina
A vitória de Keiko Fujimori amplia o avanço de governos de direita na América Latina. O resultado ocorre poucos dias depois da eleição de Abelardo de la Espriella na Colômbia e reforça uma mudança no cenário político da região.
A repercussão do resultado também chegou aos Estados Unidos. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, parabenizou Keiko Fujimori pela vitória no segundo turno e afirmou que espera fortalecer a cooperação entre os dois países, especialmente na área de segurança. A manifestação foi divulgada enquanto o resultado ainda aguarda a oficialização pelo Jurado Nacional de Eleições (JNE), prevista para ocorrer até o dia 3 de julho.
Ao assumir a Presidência, Keiko encontrará um país que enfrenta um período de forte instabilidade política. O Peru teve oito presidentes em apenas oito anos e convive com uma população cada vez mais descrente dos políticos e das instituições públicas.
Além desse cenário, o novo governo terá pela frente desafios relacionados às desigualdades econômicas entre Lima e as regiões rurais, que apresentam diferenças importantes no acesso a oportunidades e serviços públicos. A pequena diferença registrada nas urnas também evidencia um país dividido politicamente, o que deverá exigir diálogo para a condução do próximo mandato.


