IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%
Ao vivo

Fim da escala 6×1 pode elevar custo por hora, mas impacto varia

Por

·

O fim da escala 6×1, promulgado pelo Congresso Nacional na sexta-feira, 16 de outubro, abre uma nova etapa para trabalhadores e empresas no Brasil. A emenda constitucional garante dois dias de descanso remunerado por semana e prevê a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição do salário.

Fim da escala 6x1 pode elevar custo por hora, mas impacto varia
A mudança exige que as empresas reorganizem suas equipes e avaliem os custos, enquanto os trabalhadores poderão contar com mais tempo livre para descanso, atividades pessoais e até para buscar uma renda extra | Foto: Reprodução / Canva

Para André Albuquerque Jr., gestor financeiro e especialista em Finanças Empresariais, um dos principais ganhos para o trabalhador é justamente a possibilidade de ter mais tempo disponível sem perder renda. “O salário continua o mesmo e, na prática, o valor de cada hora trabalhada sobe”, afirma.

O especialista também aponta que o dia adicional de folga pode abrir espaço para outras atividades remuneradas, como trabalhos extras, prestação de serviços ou o início de um pequeno negócio.

“Hoje é cada vez mais difícil depender de uma única fonte de renda. Um dia a mais livre permite tocar um projeto pessoal, prestar serviços como autônomo, vender um produto ou começar um pequeno negócio, coisas que na escala 6×1 quase não cabem na rotina”, diz.

A escala 6×1 é o modelo em que a pessoa trabalha seis dias e descansa um. Com a mudança, a regra passa a garantir dois dias de repouso semanal remunerado, com redução progressiva da jornada máxima. A adaptação, porém, envolve realidades diferentes: enquanto algumas empresas conseguem redistribuir tarefas e horários, outras dependem de funcionários presentes durante todo o dia, inclusive aos fins de semana.

Como o fim da escala 6×1 pode afetar os custos das empresas?

Para os empregadores, um dos principais pontos de atenção é o custo da mão de obra. Com menos horas de trabalho disponíveis e a manutenção dos salários, o valor pago por hora tende a aumentar. Isso não significa, necessariamente, que a despesa total da empresa crescerá na mesma proporção, já que o resultado depende de como o trabalho é organizado e de quantas horas precisam ser cobertas.

Albuquerque Jr. ilustra essa diferença com um exemplo: um funcionário que custa R$ 3 mil por mês, considerando salário, encargos e benefícios, e trabalha 220 horas mensais representa um custo aproximado de R$ 13,60 por hora. Se a carga cair para 200 horas, mantendo o custo mensal, o valor sobe para R$ 15 por hora, uma alta de cerca de 10%.

A conta, entretanto, não termina aí. “Custo por hora maior não significa custo total maior”, explica o especialista. Se parte do tempo era dedicada a períodos de pouco movimento, tarefas improdutivas ou atividades que podem ser reorganizadas, a empresa talvez não precise repor todas as horas reduzidas.

Por isso, antes de contratar mais funcionários ou aumentar preços, o empresário precisa avaliar quantas horas são realmente produtivas, como a demanda se distribui ao longo da semana e quanto já é gasto com faltas, horas extras e substituição de trabalhadores. Segundo Albuquerque Jr., o indicador mais importante é o custo por cliente atendido ou por unidade produzida, e não apenas o valor de cada hora trabalhada.

Quais setores podem ter mais dificuldade?

Empresas que dependem de atendimento presencial e precisam funcionar todos os dias tendem a enfrentar uma adaptação mais complexa. O especialista cita restaurantes, comércio, supermercados, serviços de saúde, segurança e transporte entre as atividades em que a presença dos trabalhadores precisa ser mantida ao longo da semana. Pequenos negócios, com equipes reduzidas e margens apertadas, também podem sentir mais o impacto.

“Um restaurante com cinco funcionários sente o impacto de forma muito mais intensa que uma empresa de 200”, compara.

Isso ocorre porque, em operações menores, a ausência de uma pessoa pode exigir mudanças importantes na distribuição das tarefas ou a contratação de alguém para cobrir o horário.

Já escritórios, empresas de tecnologia e serviços administrativos podem ter mais facilidade quando o trabalho é organizado por entregas e permite maior flexibilidade de horários. A adaptação também tende a ser mais simples para negócios que já funcionam em escalas com cinco dias de trabalho e dois de descanso.

A diferença, portanto, não está apenas no tamanho da empresa, mas na forma como ela presta seus serviços. Negócios que precisam manter atendimento contínuo têm menos espaço para simplesmente concentrar as tarefas em menos dias.

Contratar mais funcionários é a única saída?

A contratação pode ser necessária em algumas operações, mas não deve ser a primeira medida adotada, avalia Albuquerque Jr. Antes de ampliar a equipe, o empresário pode mapear os horários de maior movimento, distribuir melhor os funcionários entre períodos de pico e de menor demanda e testar escalas com horários diferentes de entrada e saída.

Outra possibilidade é preparar os trabalhadores para desempenhar mais de uma função, além de reduzir retrabalho e automatizar tarefas administrativas. O especialista cita atividades como emissão de notas, conciliação bancária, agendamentos e recebimento de pedidos pela internet. A terceirização de áreas de apoio, como o setor financeiro, também pode ser considerada.

“Nas empresas que acompanho, uma parte relevante do tempo da equipe vai para tarefas administrativas manuais que poderiam ser automatizadas ou terceirizadas”, afirma.

Para ele, investimentos em tecnologia podem se tornar mais vantajosos quando o custo das horas trabalhadas aumenta, desde que resolvam uma necessidade real, sejam compatíveis com o porte do negócio e venham acompanhados de treinamento.

O fim da 6×1 pode aumentar os preços?

O impacto sobre os preços depende do peso da mão de obra nos custos e da capacidade de cada empresa de absorver a mudança. Em atividades como alimentação fora de casa, beleza, limpeza, segurança e comércio com atendimento presencial, a possibilidade de repasse é maior quando a folha de pagamento representa uma parcela importante das despesas e a margem de lucro é apertada.

Ainda assim, o aumento não é automático. Empresas que conseguem elevar a produtividade, reorganizar as escalas ou reduzir desperdícios podem absorver parte dos custos. A concorrência e a sensibilidade dos consumidores aos preços também limitam a possibilidade de cobrar mais.

“Pode haver impacto, mas é importante não confundir aumento de preço em alguns setores com inflação generalizada”, ressalta Albuquerque Jr. Segundo ele, o efeito precisa ser avaliado de acordo com as características de cada atividade, já que negócios mais automatizados ou com menor participação da folha de pagamento no faturamento podem sentir menos pressão.

Para atravessar a mudança, o especialista recomenda que as empresas façam um diagnóstico dos custos, acompanhem a demanda por dia e horário, simulem novas escalas e revisem os preços com base nos números. O diálogo com a equipe e a avaliação da produtividade por resultados, em vez de apenas pelas horas de presença, também podem ajudar na adaptação.

Para os trabalhadores, a orientação é planejar como usar o tempo adicional de descanso, seja para atividades pessoais, seja para desenvolver uma fonte complementar de renda. A forma como cada empresa organizar a transição e como cada profissional aproveitar as novas possibilidades será importante para definir os efeitos da mudança no cotidiano.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.

Publicidade