A presença de mulheres e pessoas negras em cargos de direção em empresas listadas na bolsa brasileira diminuiu em 2024, conforme aponta a pesquisa “Mulheres em Ações”, conduzida pela B3. O estudo, que analisou 359 companhias de capital aberto, revela um retrocesso significativo em relação ao ano anterior, acentuando os desafios que o mercado corporativo enfrenta para promover uma inclusão efetiva e representativa.
Um cenário preocupante para a diversidade nas empresas
Segundo os dados divulgados, 56% das empresas não possuem mulheres entre seus diretores estatutários, um aumento em relação ao índice de 55% registrado em 2023. A situação é ainda mais preocupante quando se observa a quantidade de empresas com mais de três mulheres em cargos de direção: apenas 6% das companhias atendem a este critério, um decréscimo em comparação aos 7% registrados no ano anterior.
O recorte racial também aponta uma piora nos indicadores de diversidade. Das 359 empresas avaliadas, 354 (98,6%) declararam não ter nenhum diretor estatutário preto, enquanto 315 (87,7%) não possuem diretores estatutários pardos. Em 2023, eram 337 companhias sem pessoas pretas na diretoria e 305 sem pessoas pardas, mostrando um retrocesso significativo em um ano.
Esses dados evidenciam a persistência de uma lacuna crítica na representatividade de mulheres e pessoas negras nos altos escalões das empresas brasileiras, mesmo em um contexto onde a inclusão e a diversidade são temas recorrentes em debates e estratégias de ESG (ambiental, social e de governança).
A necessidade de ações afirmativas
Especialistas apontam que a estagnação e até regressão nos números de diversidade em cargos de liderança refletem uma falta de comprometimento das empresas em implementar políticas efetivas de inclusão. Para a consultora de diversidade e inclusão, Maria Silva, a falta de mulheres e negros na liderança não é apenas uma questão de ausência de qualificação, mas sim de um sistema que perpetua a desigualdade estrutural.
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“Ainda existe uma mentalidade arraigada de que os cargos de alta gestão são, por definição, para homens brancos. Isso cria uma barreira invisível para a ascensão de grupos historicamente marginalizados”, afirma Maria. Ela destaca que programas de mentoria e desenvolvimento de lideranças femininas e negras, aliados a políticas de recrutamento que priorizem a diversidade, são essenciais para mudar esse cenário.
O impacto da falta de diversidade
A falta de diversidade nos cargos de direção não é apenas um problema ético, mas também econômico. Estudos demonstram que empresas com maior diversidade em suas lideranças tendem a ter resultados financeiros melhores. A diversidade de perspectivas pode impulsionar a inovação, melhorar a tomada de decisões e fortalecer a resiliência organizacional.
Quando as empresas negligenciam a inclusão em seus quadros de liderança, elas perdem a oportunidade de refletir a diversidade de seus públicos e mercados, o que pode resultar em decisões menos assertivas e em uma desconexão com as necessidades e expectativas de diferentes consumidores e stakeholders.
Para Rosana Borges, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a falta de representatividade nas empresas é uma questão que se estende além do ambiente corporativo. “A ausência de mulheres e negros em posições de liderança nas empresas perpetua a ideia de que esses grupos não pertencem a esses espaços de poder. Isso tem um efeito simbólico negativo, que reforça a exclusão social e econômica”, argumenta.
Comparações internacionais e desafios do Brasil
Em comparação com outros países, o Brasil ainda apresenta desafios significativos na promoção da diversidade. Nos Estados Unidos e na Europa, embora a representatividade também seja um desafio, a adoção de políticas mais rigorosas e a pressão de investidores têm impulsionado mudanças nas estruturas de liderança das empresas.
No Brasil, a falta de regulamentações que incentivem ou exijam diversidade nos conselhos e na alta gestão das empresas contribui para a estagnação dos números. “O Brasil precisa urgentemente de políticas públicas que incentivem a diversidade nas empresas, além de uma conscientização maior por parte dos acionistas e da sociedade em geral”, aponta Gustavo Teixeira, especialista em governança corporativa.
Caminhos para um futuro mais inclusivo
Para reverter esse quadro, é necessário um esforço conjunto entre empresas, sociedade civil e governo. Além de políticas de recrutamento inclusivo, as companhias devem investir em programas de desenvolvimento e retenção de talentos diversos, assegurando que essas lideranças entrem no mercado e tenham oportunidades reais de crescimento e ascensão.
A criação de métricas e objetivos claros para diversidade também pode ajudar as empresas a monitorar seus avanços e identificar áreas que necessitam de mais atenção. Transparência e prestação de contas são essenciais para que essas iniciativas sejam levadas a sério e tenham resultados efetivos.
No final, a construção de um ambiente corporativo mais inclusivo e diverso não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia inteligente para empresas que desejam inovar, crescer e se manter relevantes em um mercado cada vez mais competitivo e plural.
Com a publicação da pesquisa da B3, espera-se que mais empresas reflitam sobre suas práticas de inclusão e busquem estratégias efetivas para transformar esse cenário. Assim, garantindo que no futuro mulheres e pessoas negras ocupem mais espaços de liderança e decisão no Brasil.


