O mercado de tecnologia vive uma nova corrida por talentos. Desta vez, os protagonistas não são desenvolvedores de aplicativos nem executivos veteranos, mas sim jovens pesquisadores de inteligência artificial (IA), que passaram a negociar salários comparáveis aos de estrelas da NBA (National Basketball Association é a principal liga de basquetebol profissional da América do Norte).
A recente oferta de cerca de US$ 250 milhões — o equivalente a aproximadamente R$ 1,35 bilhão — feita pela Meta a um jovem pesquisador de 24 anos expôs a intensidade dessa disputa no setor.
A revelação foi feita em reportagem do jornal The New York Times (NYT), que detalha a negociação entre o criador da Meta, Mark Zuckerberg, e Matt Deitke, cofundador da startup Vercept. O valor bilionário oferecido pela gigante de tecnologia inclui ações e dinheiro, distribuídos ao longo de quatro anos, sendo que até R$ 540 milhões poderiam ser pagos já no primeiro ano.
Deitke inicialmente recusou uma primeira oferta de US$ 125 milhões (R$ 675 milhões), mas mudou de ideia após uma segunda proposta pessoalmente discutida por Zuckerberg. A startup de Deitke, fundada em novembro de 2024, conta com cerca de 10 funcionários e já levantou US$ 16,5 milhões (R$ 89,1 milhões) em investimentos, incluindo aportes do ex-CEO do Google, Eric Schmidt.
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Mercado de IA repete lógica do esporte profissional
A comparação com atletas de elite não é apenas retórica. O contrato de quatro anos do jogador Steph Curry com o Golden State Warriors, assinado por US$ 215 milhões (R$ 1,16 bilhão), é inferior à proposta recebida por Deitke. Segundo o The New York Times, o mercado de IA passou a simular o mercado esportivo, com empresas como Meta, OpenAI, Google e Microsoft disputando profissionais com pacotes milionários e estratégias semelhantes às usadas em negociações com grandes atletas.
Plataformas como o canal TBPN, que cobre tecnologia com uma abordagem inspirada na ESPN, passaram a divulgar contratações com gráficos e linguagem típicos do esporte. Em uma postagem recente, o canal destacou que a Microsoft contratou mais de 20 funcionários da DeepMind, laboratório de IA do Google, nos últimos seis meses.
As empresas de tecnologia, diferente dos times esportivos, não têm limite para o quanto podem pagar aos seus profissionais. Por isso, os salários para especialistas em inteligência artificial (IA) têm crescido muito. Essas empresas explicam que tecnologias avançadas de IA, como o deep learning — que ajuda os computadores a aprenderem sozinhos, analisando muitos dados e identificando padrões, como imagens, voz e traduções — precisam de profissionais com conhecimentos difíceis de encontrar e muito valorizados.
Poder computacional entra na negociação
Além dos altos salários, as empresas oferecem benefícios que vão além do dinheiro. Entre os atrativos está o acesso a grande poder computacional. Alguns pesquisadores, como Deitke, foram informados de que poderiam utilizar até 30 mil unidades de processamento gráfico (GPUs) em suas pesquisas. Esses chips, essenciais para rodar modelos de IA, são hoje um recurso estratégico, dada sua escassez global.
Essa abordagem agressiva se intensificou após a OpenAI lançar o ChatGPT em 2022, marco que popularizou a IA generativa e acirrou a competição entre gigantes do setor. Desde então, profissionais com experiência em treinamento de modelos multimodais — que combinam texto, imagem e som — tornaram-se altamente disputados.
Zuckerberg, inclusive, tem se envolvido pessoalmente nas negociações. Em abril, o executivo intensificou o recrutamento com mensagens diretas a pesquisadores, tentando convencê-los a ingressar na Meta. A lógica, segundo fontes internas, é que o retorno potencial justifica o investimento. Com uma capitalização de mercado próxima de US$ 2 trilhões (R$ 10,8 trilhões), uma melhora de desempenho de meio ponto percentual poderia significar bilhões em receita adicional.
Estrutura de contratação de pesquisadores e reações no mercado
O movimento da Meta obrigou concorrentes a se adaptarem. A OpenAI, por exemplo, reformulou seu modelo de compensação e passou a exigir que funcionários notificados por empresas rivais comuniquem seus líderes antes de aceitar propostas. Em reunião interna, o diretor de pesquisa da OpenAI, Mark Chen, confirmou que a empresa está “contra-atacando”, embora não esteja igualando as ofertas bilionárias da Meta.
A valorização dos pesquisadores de IA também levou a reações no ecossistema de startups. Mesmo diante de propostas extremamente vantajosas, alguns profissionais optaram por seguir com seus projetos, especialmente quando identificam divergências estratégicas com a visão das grandes corporações. No caso da Meta, houve recusas, segundo fontes próximas, devido à falta de clareza na direção da empresa em relação ao uso de IA.
Historicamente, o mercado de IA já apresentava disputas por talentos. Em 2012, o Google comprou os direitos de um grupo de pesquisadores da Universidade de Toronto por US$ 44 milhões (R$ 237,6 milhões). Em 2014, a Microsoft estimava que o custo anual de um especialista em deep learning de alto nível já se equiparava ao de um quarterback promissor da NFL (National Football League é a liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos).
O cenário de 2025, no entanto, mostra uma escalada sem precedentes. Com poucos profissionais realmente capacitados para desenvolver os sistemas mais avançados, a combinação entre escassez de mão de obra e demanda crescente pressiona os salários a patamares antes restritos ao entretenimento e aos esportes.


