A 48ª edição da Expointer, maior feira do agronegócio da América Latina, chega ao fim nesta segunda-feira, 8 de setembro, em Esteio, na região metropolitana de Porto Alegre (RS), marcada por um resultado negativo histórico.

A queda foi de 48,9%, segundo balanço divulgado pela organização da feira em sua tradicional entrevista de encerramento. Embora a Expointer tenha registrado público recorde, com visitantes lotando os pavilhões, a cena nos estandes de tratores, colheitadeiras e implementos era outra: corredores vazios, pouco movimento e negócios escassos.
A baixa era tão evidente que o Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers) chegou a cogitar não divulgar os números oficiais de vendas.
Uma tempestade perfeita para o setor
Fabricantes e revendedores apontam que o resultado fraco era esperado, consequência de um conjunto de fatores negativos que se acumularam nos últimos anos. Agricultores gaúchos estão sem dinheiro em caixa, depois de cinco safras consecutivas prejudicadas. Entre 2020 e 2024, o campo no Rio Grande do Sul foi atingido por longas estiagens e, mais recentemente, por enchentes históricas.
Com perdas na produção, muitos produtores rurais acumularam dívidas ou estão inadimplentes. Para piorar, o preço da soja, principal produto agrícola do estado, vem em queda desde meados de 2022. O cenário gera falta de confiança no futuro e leva o agricultor a adiar investimentos pesados, como a compra de máquinas que custam milhões de reais.
Crédito caro e recursos represados
As condições de financiamento também dificultaram as vendas. A taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, está no patamar mais alto desde 2006. Juros altos encarecem empréstimos, tornando menos atrativa a aquisição de novos equipamentos a prazo.
Outro problema foi o represamento dos recursos do Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota), linha de crédito do governo federal operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esse programa financia justamente a renovação do maquinário no campo. De acordo com o Simers, os valores liberados pelo Moderfrota caíram 96% em agosto em relação a julho.
Outro fator que explica a retração está na própria evolução tecnológica das máquinas agrícolas. O Serviço Nacional de Aprendizado Rural (Senar) destaca que muitos produtores não utilizam todo o potencial dos equipamentos de última geração.
O futuro da Expointer e do setor
Mesmo com as dificuldades, a Expointer segue sendo vitrine para a inovação no agronegócio, reunindo fabricantes, produtores e investidores de todo o Brasil e do exterior. Mas o resultado desta edição acende um alerta para a indústria de máquinas agrícolas, que depende diretamente da renda e da confiança do produtor rural.
Especialistas afirmam que a recuperação do setor depende de fatores como a retomada do crédito, a melhora no preço da soja e a redução das perdas climáticas que têm castigado o Rio Grande do Sul. Até lá, fabricantes terão de buscar alternativas para manter seus negócios, como apostar em modelos mais acessíveis e em linhas de financiamento diferenciadas.
A queda de quase 50% nas vendas da Expointer 2025 marca as dificuldades enfrentadas pelo agronegócio gaúcho — um setor acostumado a puxar o crescimento da economia, mas que hoje convive com incertezas e desafios que vão muito além das lavouras.


