O debate sobre o envelhecimento da população economicamente ativa tem ganhado espaço nas discussões sobre mercado de trabalho no Brasil e no exterior. Um levantamento recente da Society for Human Resource Management, maior associação profissional de recursos humanos do mundo, trouxe dados que ajudam a entender como diferentes gerações enxergam o futuro da mão de obra madura.
O estudo analisou trabalhadores dos Estados Unidos com menos de 65 anos, abrangendo pessoas entre 18 e 54 anos. A pesquisa buscou identificar quais mudanças esses profissionais gostariam de ver nas empresas para apoiar colegas mais velhos, especialmente aqueles com 65 anos ou mais. Os resultados indicam que o tema não se restringe apenas aos trabalhadores sêniores, mas afeta diretamente as expectativas das gerações mais jovens e de meia-idade.
Leia também: Pequenos negócios lideram contratações formais em 2025

Horários flexíveis lideram as demandas
Entre os entrevistados de 18 a 54 anos, 55% afirmaram que gostariam que as empresas oferecessem horários flexíveis para apoiar trabalhadores mais velhos. A flexibilização da jornada aparece como a principal demanda, refletindo uma preocupação com equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, além de adaptação às condições físicas e de saúde que podem surgir com o avanço da idade.
A preferência por horários flexíveis não se limita a uma única faixa etária. O dado mostra que profissionais mais jovens também veem valor nesse modelo, seja por conviverem com colegas mais experientes ou por projetarem suas próprias trajetórias de longo prazo dentro das organizações.
Saúde, reconhecimento e transição gradual
Além da flexibilidade, outros pontos aparecem com força no levantamento. Programas de bem-estar voltados às necessidades de saúde relacionadas à idade foram citados por 44% dos participantes. A mesma proporção, 44%, destacou a importância de modelos de aposentadoria em fases, que permitam uma transição gradual até a saída definitiva da força de trabalho.
O reconhecimento da contribuição profissional ao longo da carreira também foi apontado por 43% dos entrevistados. Esse dado sugere que a valorização simbólica e institucional da experiência acumulada é vista como um elemento central para manter trabalhadores mais velhos engajados.
Questões ligadas à inclusão aparecem em seguida. Cerca de 42% defendem maior respeito e participação dos trabalhadores maduros nos processos de tomada de decisão. Outros 41% destacaram a importância de programas de mentoria que aproveitem o conhecimento desses profissionais, enquanto a mesma porcentagem citou a necessidade de apoio para transições internas, com mudanças de função alinhadas às capacidades e interesses do trabalhador ao longo do tempo.
Ausência de políticas para profissionais sêniores
Um dos dados que mais chamam atenção no relatório da SHRM é que 93% das empresas não possuem programas formais ou informais de recrutamento voltados especificamente para trabalhadores mais velhos. Essa lacuna é vista como um desafio estrutural, especialmente diante das projeções demográficas que indicam envelhecimento da população e redução do contingente de jovens no mercado de trabalho nas próximas décadas.
A ausência de estratégias direcionadas não impacta apenas quem já está acima dos 65 anos. Ela afeta também profissionais mais jovens, que passam a enxergar menos perspectivas de permanência e progressão em carreiras longas dentro das mesmas organizações.
O que pensam os gestores de recursos humanos
O levantamento também ouviu gestores da área de recursos humanos para avaliar a receptividade das empresas a políticas de recrutamento mais inclusivas. De forma geral, houve abertura para a adoção de novas práticas voltadas à mão de obra sênior.
Entre as propostas mais bem avaliadas está o treinamento de gestores para avaliar de maneira mais eficaz candidatos mais velhos, citado por 56% dos respondentes. A modificação de anúncios de vagas para torná-los mais inclusivos apareceu em 48% das respostas, indicando que a linguagem utilizada nos processos seletivos pode ser um fator de exclusão não intencional.
Ajustes em cargos e formação de talentos
Outras estratégias mencionadas incluem o desenvolvimento de uma chamada pipeline de talentos com senioridade, citada por 38% dos gestores. Esse conceito se refere à criação de um banco de profissionais qualificados e experientes, prontos para assumir posições quando surgirem oportunidades, inclusive por meio do mapeamento de talentos de outras empresas.
A modificação do desenho de cargos, conhecida como job design, foi apontada por 36% dos entrevistados. Esse processo envolve estruturar o trabalho de forma que ele seja produtivo e, ao mesmo tempo, adequado às capacidades físicas e cognitivas de quem o executa. Medidas de marketing e divulgação direcionadas a candidatos maduros foram lembradas por 34%, enquanto 31% citaram a realização de feiras de emprego adaptadas a esse público.
Impactos para o futuro do trabalho
Os dados apresentados pela SHRM indicam que a valorização da mão de obra madura não é vista apenas como uma pauta social, mas como uma questão estratégica para a sustentabilidade das empresas. A combinação entre envelhecimento populacional, avanço tecnológico e mudanças nas relações de trabalho exige adaptações que envolvem tanto políticas internas quanto processos de recrutamento e retenção.
Para profissionais de 18 a 54 anos, as mudanças desejadas refletem uma preocupação com ambientes mais inclusivos, flexíveis e preparados para trajetórias profissionais mais longas. O levantamento reforça que o debate sobre trabalhadores mais velhos está conectado a expectativas de diferentes gerações e às transformações estruturais do mercado de trabalho.


