A rede de supermercados St. Marche fechou um acordo para a venda de 100% de suas operações ao grupo chileno Cencosud, um dos maiores varejistas da América Latina. A conclusão da negociação, no entanto, depende da homologação do pedido de recuperação judicial apresentado pelo Grupo Hortus, controlador da rede, à Justiça de São Paulo. O valor da transação não foi divulgado.
As negociações entre as duas empresas vinham sendo conduzidas desde o quarto trimestre de 2025. Além da aprovação da recuperação judicial, a operação também precisará do aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), responsável por analisar possíveis impactos concorrenciais.

O grupo chileno já atua no país por meio de redes como Giga Atacado, GBarbosa, Bretas e Prezunic, e agora passará a contar com uma marca reconhecida pelo atendimento ao público de maior poder aquisitivo no Estado de São Paulo.
Em comunicado ao mercado, a empresa afirmou que a compra está alinhada à estratégia de fortalecer sua atuação em segmentos de maior valor agregado, mantendo o foco em qualidade, atendimento e experiência de compra.
O acordo prevê que a Cencosud adquira as operações do St. Marche sem assumir as dívidas ou o caixa da companhia. O negócio será financiado com recursos obtidos após a venda das operações da empresa em Minas Gerais.
Recuperação judicial busca garantir continuidade das operações
Paralelamente à venda, o Grupo Hortus protocolou um pedido de recuperação judicial com uma causa estimada em R$ 574,3 milhões. Segundo a empresa, a medida é necessária para preservar as atividades da rede, manter o abastecimento das lojas e garantir a continuidade dos serviços enquanto o processo de venda é concluído.
A companhia solicitou à Justiça um período de 180 dias de proteção contra cobranças de credores para assegurar o funcionamento das operações durante a reestruturação financeira e preservar aproximadamente 2.100 empregos diretos.
O pedido foi apresentado apenas oito meses após a conclusão de uma recuperação extrajudicial. De acordo com a empresa, o modelo anterior não foi suficiente para solucionar todos os compromissos financeiros e ainda gerava incertezas sobre a efetividade da reestruturação.
Expansão acelerada e alta dos juros agravaram a situação financeira
Fundado em 2002, o St. Marche tornou-se uma das principais redes voltadas ao segmento premium no Estado de São Paulo. Atualmente, a empresa opera 32 lojas na capital paulista e em municípios vizinhos, além do Empório Santa Maria e de um centro de distribuição com 7.500 metros quadrados.
Nos 12 meses encerrados em março deste ano, a rede registrou vendas superiores a R$ 1,078 bilhão. Segundo a Cencosud, a fidelidade dos consumidores de alta renda e o posicionamento diferenciado da marca foram fatores determinantes para a aquisição.
Apesar do crescimento registrado nos últimos anos, a empresa passou a enfrentar dificuldades financeiras após o aumento expressivo da taxa básica de juros. Entre 2021 e 2024, o St. Marche ampliou sua operação de 21 para 32 lojas e elevou o faturamento de R$ 700 milhões para R$ 1,3 bilhão. No mesmo período, a Selic saiu de 2% para 15%, elevando significativamente os custos financeiros da companhia.
Em 2024, a rede precisou renegociar aproximadamente R$ 528 milhões em dívidas por meio de uma recuperação extrajudicial. Durante esse processo, recebeu um aporte de R$ 90 milhões, realizado pelo fundo americano L Catterton, controlador de 70% da empresa, e pelo BTG, para manter as atividades.
Mesmo com as medidas adotadas, a pressão sobre o caixa continuou, provocando atrasos no pagamento de fornecedores e dificuldades no abastecimento de algumas unidades.
Caso todas as condições sejam cumpridas, a aquisição permitirá que o St. Marche continue operando sob o controle da Cencosud, grupo presente em seis países, com mais de 1.396 lojas, 68 shopping centers e cerca de 115 mil colaboradores. A expectativa é que a operação fortaleça a presença da varejista chilena no mercado brasileiro e preserve uma das principais redes de supermercados premium do país.


