O Grupo Casas Bahia entrou com um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo neste domingo, 16 de agosto, em uma nova tentativa de reorganizar suas contas e renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. A medida envolve a companhia e outras nove empresas do grupo e foi aprovada pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador, a Mapa Capital, gestora de investimentos que se tornou controladora da companhia em 2025.
O pedido foi protocolado no Foro Central Cível de São Paulo, responsável pelos processos de falência e recuperação judicial. Segundo a empresa, a decisão ocorre após o agravamento das condições financeiras e depois de outras alternativas para reforçar o caixa não terem avançado.
A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira para empresas que enfrentam dificuldades financeiras. Por meio dele, a companhia pode negociar suas dívidas dentro de um processo acompanhado pela Justiça, enquanto mantém as atividades e apresenta medidas para tentar recuperar o equilíbrio financeiro.

A Casas Bahia afirmou que pretende continuar funcionando durante o processo, mantendo lojas físicas, comércio eletrônico e os demais canais de venda, sem interrupções relevantes para os consumidores.
Reestruturação começou há cerca de três anos
O pedido apresentado agora é resultado de uma sequência de medidas adotadas pela companhia desde 2023 para tentar reduzir despesas, melhorar a operação e aumentar a geração de caixa.
Naquele ano, a empresa colocou em andamento um Plano de Transformação e fechou 55 lojas consideradas deficitárias, ou seja, que estavam apresentando saldo negativo no caixa, até dezembro. Também houve uma redução de aproximadamente 8.600 postos de trabalho.
Em 2024, o grupo recorreu à recuperação extrajudicial, outro mecanismo usado para renegociar débitos, mas realizado diretamente com os credores, sem o mesmo processo judicial da recuperação judicial. Na ocasião, foram renegociados cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com instituições financeiras.
A expectativa era que a renegociação, junto com uma possível redução dos juros e uma retomada do consumo, ajudasse a melhorar a situação financeira. O cenário, porém, continuou pressionado, segundo a própria companhia.
Já em 2026, a Casas Bahia avançou para a segunda fase do Plano de Transformação. Em agosto, anunciou o fechamento de 298 lojas e uma nova redução no quadro de funcionários, com cerca de 3 mil demissões.
A estratégia passou a dar mais peso à geração de caixa e à rentabilidade, com a redução de operações consideradas menos rentáveis, além de cortes de custos, investimentos e despesas financeiras. A empresa informou que pretende concentrar sua atuação nos canais e categorias que apresentam melhores resultados.
Juros altos e crédito mais restrito agravaram situação
Segundo o comunicado oficial divulgado pela companhia, a decisão de recorrer à Justiça ocorreu em meio a um cenário de juros elevados, crédito mais restrito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro.
Outro fator foi a dificuldade para conseguir novas fontes de recursos. Nos meses anteriores ao pedido, a empresa realizou reuniões com investidores no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa para buscar alternativas de financiamento, incluindo uma possível oferta de ações.
Também estava em negociação uma operação considerada importante para o planejamento financeiro do grupo, mas o acordo não foi concluído depois que o investidor que lideraria a operação desistiu. Outras possibilidades, como empréstimos-ponte (financiamento temporário e de curto prazo) e novas linhas de crédito, também não avançaram.
Diante desse cenário, a recuperação judicial passou a ser apresentada pela companhia como uma forma de reorganizar as obrigações financeiras e tentar preservar as atividades do grupo.
O processo inclui, além do Grupo Casas Bahia, ASAP Log – Logística e Soluções, ASAP Log, CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística, Cntlog Express Logística e Transporte, Globex Administração e Serviços, Cnova Comércio Eletrônico, Integra Soluções para Varejo Digital, Casas Bahia Tecnologia e Indústria de Móveis Bartira.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões foi divulgado antes do pedido
O anúncio ocorreu um dia depois da divulgação dos resultados financeiros referentes ao segundo trimestre de 2026. Entre abril e junho, a companhia registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões.
Desse valor, R$ 9,1 bilhões estão relacionados a efeitos extraordinários, como ajustes no valor de ativos, despesas de reestruturação, contratos e mudanças na contabilização de créditos tributários. Segundo a empresa, esses efeitos não representaram saída de dinheiro do caixa no trimestre.
Apesar do resultado negativo, alguns indicadores da operação apresentaram evolução. A receita líquida chegou a R$ 7 bilhões, alta de 1,6% em relação ao mesmo período de 2025. As vendas pela internet realizadas diretamente pela companhia cresceram 15,3%.
No segundo trimestre, a Casas Bahia também informou ter gerado R$ 800 milhões em fluxo de caixa livre, contra R$ 173 milhões no mesmo período do ano anterior. A dívida líquida melhorou R$ 293 milhões em relação ao primeiro trimestre, enquanto a alavancagem ficou em 0,5 vez.
Esses números ajudam a explicar por que o prejuízo divulgado não deve ser interpretado, sozinho, como uma perda de R$ 10,1 bilhões em dinheiro no período.

O que muda para clientes e trabalhadores?
A companhia afirma que a recuperação judicial tem como um dos objetivos preservar a continuidade das operações e proteger a geração de valor no futuro. Por isso, a expectativa informada ao mercado é de manutenção das atividades nos diferentes canais de venda.
Para os consumidores, a empresa declarou que pretende manter lojas, site e demais canais funcionando normalmente, sem interrupções relevantes durante o processo.
Para os trabalhadores, a recuperação ocorre depois de uma sequência de cortes iniciada ainda na primeira fase do Plano de Transformação. A companhia afirma que atualmente emprega mais de 20 mil pessoas e que a reorganização financeira busca também preservar esses postos de trabalho.
O processo deverá definir como as dívidas incluídas na recuperação serão reorganizadas e quais condições serão apresentadas aos credores. A companhia informou que continuará divulgando ao mercado os principais desdobramentos do caso.
Casas Bahia também muda integrantes da direção
O Grupo Casas Bahia anunciou, em um Comunicado ao Mercado, mudanças na administração. Fábio Spina deixou o cargo de diretor vice-presidente Jurídico e Tributário, função que ocupava desde 2024. Segundo a companhia, ele continuará atuando como consultor durante o processo de reestruturação.
Sírley Lima assumiu a posição e também ficará responsável pelas áreas Jurídica, Tributária, de Compliance e de Controles Internos. A nova executiva tem mais de 20 anos de experiência no mercado jurídico e já trabalhou em empresas como Heineken, Pernod Ricard, Souza Cruz e EY.
O Conselho de Administração também registrou a saída de Jackson Schneider e Rogério Calderón. Com as mudanças, Cláudia Quintella Woods passou a integrar o Comitê de Auditoria Estatutário, enquanto André Luiz Helmeister assumiu uma posição no Comitê de Finanças.
Mesmo fora do Conselho de Administração, Jackson Schneider continuará como membro coordenador dos Comitês de Auditoria, Riscos e Compliance e Independente de Investigação.
A recuperação judicial representa, portanto, uma nova etapa de um processo de reorganização que começou em 2023. Depois de cortes, fechamento de lojas, renegociação extrajudicial de dívidas e tentativas de obter novos recursos, a companhia agora busca na Justiça uma forma de reorganizar suas obrigações e manter as operações enquanto procura recuperar o equilíbrio financeiro.


