Durante o Rio Innovation Week 2025, a plateia do Palco Tendências Emergentes foi tomada por risos e aplausos. No telão, Amy Webb — considerada uma das mais importantes futuristas da atualidade — se apresentava com sotaque brasileiro impecável: “Eu sou Amy Webb, sua brasileira honorária favorita. Me sinto tão em casa aqui… talvez seja meu cabelo grande, talvez minha personalidade forte. Infelizmente, não falo português, então clonei a minha voz”. O gesto, divertido e tecnológico ao mesmo tempo, já adiantava o tom da conversa: ousadia, inovação e um olhar certeiro para o futuro.

No palco do Rio Innovation Week, uniu carisma e provocação intelectual para fazer o público refletir sobre como consumimos informação, como criamos mensagens e o que realmente significa “inventar o futuro”.
Amy Webb e a estratégia com base em dados, não em palpites
Amy deixou claro logo no início: prever o futuro não é um exercício de adivinhação, mas um trabalho que exige método. Sua empresa coleta sinais de milhões de fontes, cruza dados com sistemas de inteligência artificial e identifica padrões para construir cenários de longo prazo. “Uma tendência por si só não é suficiente. Você pode estar muito certo por um curto período de tempo. Os cenários precisam estar ancorados em dados matemáticos para se tornarem realmente úteis”, explicou.
Para ela, não basta enxergar o que vem pela frente; é preciso saber como essa visão pode ajudar na tomada de decisão estratégica. “Os cenários por si só são interessantes, mas não ajudam as pessoas a agirem. É aí que entra a estratégia”, reforçou.
O meio e a mensagem: de Virginia Fonseca ao teatro grego
Em um dos momentos mais descontraídos, Amy citou a influenciadora Virginia Fonseca para questionar como algumas personalidades conquistam relevância. “Ela não é cantora, não é atriz, não é jogadora de futebol. Então por que sabemos quem ela é?”, provocou. A resposta estava em sua tese central: o meio influencia profundamente a mensagem. “Os influenciadores de hoje só existem por causa da internet, mas influenciadores existem desde sempre — do cinema ao rádio, e mesmo antes disso, no teatro.”
O desafio, segundo Amy, é que a evolução tecnológica fragmenta a atenção do público. “É cada vez mais difícil capturar a atenção de forma abrangente. Isso está criando novos meios e novas mensagens. As marcas precisam entender isso para continuar relevantes.”
Influenciadores do futuro: agentes autônomos de IA
Amy apresentou uma visão instigante sobre a próxima onda do marketing de influência: os influenciadores gerados por IA. Ela os chama de “agentes de projetos avançados” — modelos autônomos capazes de criar milhões de versões de si mesmos para diferentes públicos. “Imaginem três milhões de versões diferentes da Virginia Fonseca, cada uma adaptada para um nicho específico. Isso vai gerar uma explosão de micro marcas e micro segmentos de mercado”, disse.
Nesse cenário, a IA não será apenas uma ferramenta, mas o próprio meio e o mensageiro. Plataformas serão segmentadas não só por interesse, mas também por influenciadores virtuais moldados para atender a desejos muito específicos dos consumidores.
O fim da internet como conhecemos
Outro ponto que capturou a atenção da plateia foi a previsão de Amy sobre o desaparecimento da pesquisa online como conhecemos. “Teremos uma internet sem cliques. No lugar disso, sistemas colaborativos de IA farão a pesquisa por nós”, afirmou. Essa mudança, segundo ela, alterará radicalmente como a informação é organizada e entregue.
Para as empresas, isso significa repensar como chegam até o consumidor. A busca ativa será substituída por interações mediadas por sistemas inteligentes, capazes de personalizar não só a mensagem, mas também o formato e o momento da entrega.
A personalização total: produtos sob medida em escala
Amy compartilhou um exemplo prático de como a IA pode transformar o varejo. Ao treinar um sistema com suas medidas e preferências, o software encontrou um fabricante, projetou e enviou um produto personalizado. “No futuro, a IA não fará simulações genéricas. Ela vai criar algo alinhado exatamente ao que o consumidor deseja. Os modelos de IA serão as marcas”, previu.
Essa mudança, segundo ela, vai redefinir a cadeia de valor: “O que o meio é e como as mensagens são mostradas irá mudar drasticamente. Como e onde o valor será criado também.”
Coragem para inventar o futuro
Ao longo da palestra, Amy alternou entre previsões provocativas e conselhos práticos para quem quer inovar de verdade. Ela alertou que, apesar do discurso frequente sobre inteligência artificial, poucas empresas estão realmente aplicando a tecnologia de forma transformadora. “Sejam expansivos. Estejam dispostos a assumir riscos. Inventar o futuro demanda coragem, trabalho e inovação”, concluiu, sob aplausos.
Ao se despedir, a futurista que clonou a própria voz para falar português deixou no ar uma mensagem que ecoa muito além do evento: o futuro não é um destino inevitável, mas algo que construímos — ou deixamos de construir — todos os dias.


