A presença feminina no setor de tecnologia ainda é pequena, mas cresce à medida que mais mulheres conquistam espaço e voz em um mercado cada vez mais guiado pela inteligência artificial. Esse foi o foco da palestra “O Brasil precisa da IA. A IA precisa das mulheres”, realizada no IA Brasil Experience, no Anhembi Arena, em São Paulo.

O encontro reuniu Adriele Marchesini (ABRIA), Tácia Souza (Ericsson), Daniela Cunha (Universidade Presbiteriana Mackenzie), Samanta Lopes (Escola de Negócios da Favela) e Roberta Piozzi (Brasscom) — todas embaixadoras do projeto Mulheres na IA, que busca ampliar a participação de mulheres no ecossistema de tecnologia e inovação no Brasil.
A presença feminina ainda precisa ser conquistada
As palestrantes destacaram que o preconceito de gênero ainda é uma barreira real nas áreas de tecnologia e educação. Muitas mulheres em posições de liderança relatam a necessidade constante de provar sua competência, mesmo com resultados concretos. “Quando estamos em cargos mais elevados, precisamos nos provar mais — ainda que os números mostrem que mulheres em liderança entregam mais resultados”, destacou Daniela.
Essa desigualdade começa cedo, nas escolas e universidades. Segundo as palestrantes, ainda há pouco incentivo para meninas interessarem por cursos de ciência, engenharia e programação. No ensino médio, são poucos os estudantes que enxergam essas áreas como caminhos viáveis, o que reflete um desinteresse maior da nova geração pelos estudos longos e desafiadores.
“Essa geração quer chegar ao topo em dois anos, mas é preciso mostrar que a tecnologia é justamente o caminho para conquistar qualidade de vida”, enfatizou Daniela.
Desigualdade racial e social também estão em jogo
Além da questão de gênero, o debate trouxe à tona outro desafio: o acesso à tecnologia em contextos de vulnerabilidade. Samanta Lopes, da Escola de Negócios da Favela, trouxe o olhar de quem vem da periferia e construiu uma carreira em tecnologia.

“Ainda preciso colocar meu currículo no primeiro slide da palestra, pra mostrar que eu tenho qualificação pra estar ali”, comentou.
Ela apontou que o voluntariado e o trabalho em ONGs são caminhos possíveis de entrada nesse universo. Segundo Samanta, esses espaços permitem aprendizado, prática e contato com profissionais que têm vontade de ensinar, além de ajudar na formação de redes de apoio e oportunidades reais de crescimento.
Pensamento crítico e espaço de fala
Outro ponto levantado foi o desafio de manter o pensamento crítico diante da automação crescente. Com a popularização da inteligência artificial, muitas tarefas estão sendo automatizadas, o que pode gerar um efeito colateral preocupante: a eliminação dos cargos de entrada, que são a base para a formação de novos profissionais.
“As máquinas estão assumindo funções básicas, mas como alguém vai passar de aprendiz para analista se o primeiro degrau está sendo cortado?”, refletiu Roberta.
Além disso, o ambiente corporativo ainda impõe silêncio às mulheres. Muitas relataram experiências em que, mesmo estando em posições estratégicas, não se sentiam à vontade para opinar ou eram interrompidas. “Subir de cargo também é aprender a falar o que precisa ser dito no momento certo”, afirmou Roberta.
Um futuro que depende da inclusão
O painel terminou com um chamado à ação. Menos de um quarto dos profissionais que atuam com inteligência artificial no mundo são mulheres, e no Brasil, apenas 16% dos ingressantes em cursos de tecnologia são do gênero feminino.
A inteligência artificial pode ser uma grande aliada da diversidade — se for construída por equipes plurais. “O setor tem a chance de nivelar homens e mulheres mais rápido, porque há uma escassez de profissionais. É uma oportunidade real de reduzir o desequilíbrio de gênero”, destacou Adriele.
Com o lançamento do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), o país deve receber investimentos bilionários para impulsionar a inovação. Mas, para que isso aconteça de forma sustentável, será preciso investir também na formação e inclusão de mulheres e jovens.


