A 16ª edição da ArtRio abriu seus trabalhos na última quarta-feira, 16 de setembro, para convidados e, a partir desta quinta, 17 de setembro, segue aberta ao público até domingo, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro.

A abertura oficial foi marcada pela mesa “A potência do feminino na arte”, no Palco I, com patrocínio da PRIO. O painel reuniu as artistas Nádia Taquary e Tadáskía e a educadora Fernanda Pessoa, com mediação de Joana Dale.
Professora de história da arte, Fernanda Pessoa abriu o debate questionando quando a arte passou a enxergar a mulher: “Temos muito para falar a respeito desse espaço que há pouco tempo tem sido abordado”. Ela traçou um panorama de como o corpo masculino se consolidou como padrão estético ao longo da história da arte, afirmando que “a única história contada ao nosso respeito seja a visão patriarcal, fosse como um corpo na forma determinada que querem nos tratar”.
Como exemplo, citou o apagamento de Maria Firmina dos Reis no romantismo literário brasileiro — um entre tantos casos de autoras cujo mérito foi atribuído a outros. Para ela, “quando se fala sobre o feminino na arte hoje, se fala quem sempre sustentou a história da humanidade e quem nunca teve o direito de se expressar ou ser reconhecido pelo seu expressar”.
Fernanda também contou sua própria trajetória, marcada por dificuldades no sertão de Pernambuco: “Eu decidi que eu seria a professora que eu queria pra minha filha. Eu sempre quis saber sobre arte, mas não conseguia acessar porque não tinha nenhuma livraria em Arcoverde”, disse, explicando que, por isso, criou um acervo próprio para aproximar seus alunos da arte.
Da estética africana às joias de axé
Nádia Taquary falou sobre seu encontro com a arte: “Eu fui arrebatada pela arte”. Contou que a escolha não foi simples: “Muito cedo meu pai disse que eu seria tudo menos artista. Só artista eu não poderia ser” — reflexo do medo do pai diante dos riscos de ela seguir carreira artística sendo mulher.
Sua pesquisa parte da estética africana e da importância dos adornos nessa cultura, com destaque para as ganhadeiras, consideradas as primeiras joalheiras do país, e para o corpo como espaço de acúmulo de pecúlio, usado historicamente por mulheres negras para comprar sua própria liberdade e a de terceiros.
Sobre essa herança, afirmou: “Eu não posso destituir desse significado e dessa simbologia, trazendo o que chamam de joias de axé”, destacando “principalmente o equilíbrio e a existência da manutenção dele”. Encerrou agradecendo sua trajetória: “Eu sou muito grata na minha trajetória, principalmente a Ayrson Heráclito, que lá atrás teve esse olhar como orientador”.
Já Tadáskía relatou que seu percurso artístico começou na infância, pela escrita, e que recentemente reencontrou um poema escrito aos 11 anos, premiado em um festival. A artista credita sua formação à mãe, Elenice Guarani, e à avó, e descreveu a herança das religiões de matriz africana como um fio condutor de seu trabalho — presente inclusive na obra que integra o acervo do MoMA e que já foi exibida na Bienal.
Feira reúne arte, gastronomia e programação cultural
Além dos estandes das 78 galerias, a ArtRio conta com projetos curados, mostra de videoarte, Conversas ArtRio e setor editorial. A programação também inclui opções de gastronomia para o público durante a feira.
Mais de 100 colecionadores e curadores são esperados no Rio para o evento. Para esse grupo, a programação inclui visitas a museus, instituições, galerias, ateliês e coleções privadas.
A feira também realiza pelo segundo ano consecutivo o Circuito Cultural, ação integrada à programação da ArtRio que busca aproximar o público dos equipamentos culturais municipais e estimular a circulação por diferentes espaços e iniciativas culturais da cidade.
Com programação até domingo (20), a 16ª ArtRio reúne diferentes frentes do mercado e da produção artística, enquanto debates como o painel sobre o feminino colocam em discussão quem teve espaço para produzir, ser reconhecido e participar da construção da história da arte.

