O caminho para o tratamento do Alzheimer ainda é longo
Apesar dos resultados animadores, a pesquisa segue em fase inicial. Os testes são um primeiro estágio e ainda será preciso passar por outros níveis antes de qualquer tentativa em seres humanos. Esse processo envolve a chamada fase pré‑clínica e, em seguida, várias etapas de ensaios clínicos, para avaliar segurança, dosagem, efeitos adversos e eficácia em pessoas.
O projeto foi referência pela articulação entre diferentes áreas da UFRJ. Além do ICB, os institutos de Bioquímica, Biofísica e Farmácia colaboraram, com apoio de entidades como o Ministério da Saúde e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Para compreender a importância do foco nos astrócitos, vale lembrar que, na maioria das pesquisas sobre Alzheimer, a atenção recai quase exclusivamente nos neurônios e nas placas de beta‑amilóide. Mas se os astrócitos deixam de nutrir os neurônios e facilitam a eliminação de toxinas, todo o delicado equilíbrio do cérebro pode ser afetado.
A molécula LASSBio‑1911 age justamente nesse ponto: em testes com neurônios em laboratório, antes mesmo dos experimentos, houve sinais de proteção dessas células de suporte.
Embora ainda distante de ser uma medicação aprovada, a descoberta colocou os astrócitos no centro da discussão científica e médica sobre o Alzheimer. Até agora, medicamentos como os anticorpos monoclonais têm se concentrado na remoção de placas, com efeitos clínicos modestos — reduziram o declínio cognitivo em cerca de 27% em 18 meses, segundo dados de ensaios.
O próximo passo será avaliar como adaptar ou otimizar essa molécula, transformando-a em um composto mais seguro e eficaz, que possa avançar à fase clínica. Esse processo envolve testes, escalonamento da produção, estudos toxicológicos e outros aspectos regulatórios. Tudo isso demandará tempo e recursos, mas o estudo serve como base animadora para novas frentes no tratamento da demência.
A LASSBio‑1911 inaugura uma nova perspectiva: em vez de atacar apenas os sinais visíveis do Alzheimer, como as placas de proteínas, ela mira nas células que sustentam o cérebro. A esperança é que, no futuro, ela leve a acompanhamento médico melhor, intervenções mais eficazes e, quem sabe, ao desenvolvimento de uma medicação capaz de proteger a memória, a autonomia e a qualidade de vida de milhões de pessoas.


