A gravidez na infância ou adolescência interrompeu os estudos de 61% das jovens mulheres que passaram por essa experiência, segundo a pesquisa “Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil”, realizada pela Plan International Brasil.

O levantamento ouviu 1.500 mulheres de 19 a 29 anos de todas as regiões do Brasil e comparou aquelas que engravidaram na infância ou adolescência com as que não passaram por essa experiência. A pesquisa analisou os efeitos sobre educação, trabalho, renda, saúde, relações familiares, autonomia e acesso a direitos. Além da pesquisa quantitativa, foram realizadas 50 entrevistas em profundidade para compreender as experiências das participantes.
Entre as jovens que interromperam os estudos após uma gravidez na infância ou adolescência, 69% afirmaram que pretendem voltar a estudar. No grupo que não engravidou nesse período, 75% das mulheres que pararam de estudar também disseram ter essa intenção.
A pesquisa também encontrou diferenças na trajetória escolar. Entre as jovens que engravidaram na infância ou adolescência, 14% tinham ensino superior completo ou mais, enquanto o percentual era de 17% entre as que não passaram por essa experiência.
Cuidado com os filhos pesa no trabalho
Os efeitos aparecem também na vida profissional. Segundo a pesquisa, 83% das jovens que engravidaram na infância ou adolescência já precisaram deixar de trabalhar ou perderam oportunidades profissionais por causa das responsabilidades de cuidado com os filhos.
A relação com a renda familiar também é diferente entre os dois grupos. Entre as jovens que engravidaram na infância ou adolescência, 48% vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos. Entre aquelas que não passaram por essa experiência, o percentual é de 34%.
Na outra ponta, 9% das jovens que engravidaram na infância ou adolescência vivem em famílias com renda acima de cinco salários mínimos. Entre as que não engravidaram, são 22%.

Entre as que não passaram por essa experiência, 49% têm os pais ou responsáveis como principal fonte de renda.
Os relatos reunidos pela pesquisa ajudam a explicar parte dessas diferenças. As entrevistadas mencionam jornadas de trabalho incompatíveis com os horários de cuidado dos filhos, sobrecarga das tarefas domésticas e dificuldade para conciliar emprego e maternidade. Também aparecem situações de discriminação em processos seletivos e no ambiente profissional.
União precoce e acesso a direitos
A pesquisa mostra que os impactos não ficam restritos à escola e ao mercado de trabalho. Entre as jovens que engravidaram antes dos 19 anos, 59% se casaram ou passaram a viver em união após a primeira gestação. O estudo também aponta maior ocorrência de uniões precoces entre esse grupo.
Outro dado chama atenção para o acesso a direitos. Entre as jovens que engravidaram antes dos 14 anos, 50% disseram que não tiveram a possibilidade de interromper a gestação nos serviços de saúde. O estudo trata esse resultado como uma violação de direitos, já que, segundo a legislação brasileira, a gravidez de menores de 14 anos é considerada resultado de estupro de vulnerável.
O preconceito também aparece nos resultados. Segundo a pesquisa, 73% das jovens que engravidaram na infância ou adolescência afirmaram ter passado por situações de discriminação. Os relatos citam julgamentos relacionados à capacidade intelectual, moral e profissional dessas mulheres.
Acesso à informação também pesa nas escolhas
O estudo também identificou diferenças no acesso à informação sobre sexualidade e direitos reprodutivos. Entre as jovens que passaram por uma gravidez na infância ou adolescência, aparecem maiores dificuldades para conseguir informações, acessar serviços de saúde e conhecer os próprios direitos.
A a gravidez não acontece isoladamente das condições de vida das jovens, segundo a pesquisa. A análise aponta que fatores como acesso a serviços, oportunidades educacionais e apoio institucional já fazem parte das trajetórias dessas mulheres antes da gestação. Por isso, os resultados devem ser entendidos dentro de um contexto mais amplo de desigualdades.
Entre as recomendações apresentadas estão ampliar o acesso à educação sexual e reprodutiva, facilitar a obtenção de métodos contraceptivos, fortalecer o atendimento de saúde, garantir condições para que jovens mães permaneçam na escola e criar políticas de primeiro emprego voltadas para esse público. A pesquisa também defende a ampliação de creches compatíveis com as rotinas de estudo e trabalho.


